Dia destes eu pensava: nós, povo brasileiro, somos a síntese da diáspora africana de milhares e milhares de anos atrás. Muitas vezes, eu ouvi falar que a humanidade primeiro nasceu no continente África. Mas, então – eu pensava –, como é possível que um mesmo igual tenha dado em tanta diversidade? De fato, quando nasceu a criatura, nasceu um mesmo e igual no mundo. Só que, quando nasceu, já nasceu múltipla e multicolorida.
Pensava eu nessas coisas, quando vi um programa na televisão que explicava isso direitinho, usando uma metáfora que me caiu como uma luva. A metáfora do programa de tevè mostrava esse colorê primordial de raças de maneira simples e muito eficaz: cada grupo representado com porções de confeti, cada grupo de uma cor. Achei perfeita a comparação! Pontinhos amarelo aqui, pontinhos azul ali, pontinhos branco lá, pontinhos vermelho acolá, pontinhos verde, marrom, preto, pontinhos... E pude, enfim, compreender – quando nascemos, nascemos num mesmo lugar, África. E já ali nascemos muitos e diferentes, nascemos coloridos. Como confeti.
E por que seria esse povo, o brasileiro, a síntese da diáspora humana no mundo, saída lá de África?
Bem, porque, como confeti, também somos coloridos. Às vezes me parece mesmo que só aqui, no Brasil (por enquanto), aquelas pequenas porções de gente do começo dos tempos se funde como uma frande imagem, cheia de pixels, cheia de definição, porque somos feitos de muitos pontinhos de cor. Então, parece mesmo que a síntese do projeto Criatura Humana veio dar nestas terras, a Terra Brasilis, como um ponto altamente significativo de vir a ser uma síntese.
Seria mesmo? Afinal, o povo brasileiro não é exatamente igual ao Bom Selvagem, nem exatamente igual Macunaíma. O povo brasileiro é um acontecimento prometido. Não são poucos os pensadores, filósofos e poetas, diregentes, gestores, finaciadores que profetizam: o Brasil tem forte potencial para orientar muitos dos passos do futuro. Falaram assim os totalitários, falaram assim neoliberais, fala assim a gente toda, o mundo todo, hoje em dia.
E nós aqui, só brasileiros, tão coloridos, tão festeiros, tão romeiros, esperando a próxima festa, o próximo carnaval, próxima romaria. E ali vamos nõs, brasileiros, passando com nossos corpos, nossos véus, velas, carros, cordão. Como ir fazer o futuro do mundo, justo nós, só assim tão brasileiros, tão só tupiniquins?
On n'ést pas ni bleu, ni blanc, ni rouge. Nossa cor primeira é o verde e o amarelo. Tem também o branco e o azul, mas o verde e o amarelo são o novo e inesperado, embora na natureza está por todo lugar. Então, esse verde e amarelo pulsa bem no jeito de ser brasileiro. É como se no verde tivesse um punhado de todas as cores, e no amarelo, um punhado de outras mais todas as cores. O verde é escuro, acolhedor; o amarelo, claro, expansivo. O amarelo é quente, aquece. O verde é frio, refresca. É um Brasil que é colorido, mas, como tudo mais no mundo, vem de um duo primordial: o verde e o amarelo. Esse verde e amrelo, que é tão brasilis, colore as outras todas as cores, que começaram em Afica, se espalharam, pelos quatro cantos do mundo e se fundeme se con-fundem por aqui, no Brasil.
Nascer no Brasil é assim mesmo: é nascer tupi outras tribos e guarani; é nascer íbero cristão; é nascer preto; é nascer escravo e quase escravo. E é também nascer acreditando que somos menos que outros colonizados de nossa época, porque há colonizadores melhores que outros colonizadores. Como se isso fosse possível!
Se é verdade que o Brasil é o país do futuro e se é verdade que o futuro é agora, então o Brasil só pode ser esperança justamente porque é outra coisa bem diferente de todas as outras coisas que certos colonizadores fizeram o mundo acreditar, a começar de que o que eles sabem é o que é bom para o mundo. Se a cultura dos dominadores anglo-saxões fossa a melhor, não resultaria nem Hitler nem Roosevelt. Ambas propostas (que são só uma mesma coisa) são fruto do que a cultura colonizadora diz ser o melhor de sua proposta de superioridade civilizatória, a ciência: eugenia para a Europa bárbara; bomba atômica para a América yankee.
Em certa medida, pode-se dizer que a Segunda Guerra Mundial foi o ápice de sua proposta colonizadora, o zênite de uma civilização, que, rumo ao nadir, lança suas derradeiras idéias nos países neo-colonizados, inclusive depois da Segunda Guerra, como as ditaduras dos anos 60-80-80-90, inclusive no Brasil, e ainda hoje, pleno século 21, com as bizarras ocupações dos povos produtores de petróleo, principalmente no Oriente, o velho oriente. Então, se o Brasil propuser um futuro, mesmo com esse seu povo meio assim desengonçado, não há de ser para fazer do futuro um repeteco chocho do passado. Xô, passado, xô, século 20, chega de sua refutável comprovação científica aplicada às dores e torturas de tantos povos!
Aqui é Brasil. E, se é Brasil, é um pouco mais verde e amarelo, embora com todas as cores. Se é mais cores, é mais definição. Será? Que imagem é essa que se vê quando se vê o Brasil de longe e de fora, esse lugar todo feito do confeti das migrações? Há sofrimento, há esquecimentos, muita desventura ainda vive o povo do Brasil, que nem consegue ver o que tanta gente vê em nós: o futuro, e não qualquer futuro, um futuro promissor. Mas se o mundo (ou alguns desse mundo) estiver certo quando diz que somos o portal para o futuro, deve ser possível que a gente se mostre assim mesmo, na essência tupiniquim, meio samba, suor e cerveja; meio cordão, meio procissão, meio pipoca.
E gingando praqui, ginando pracolá, a gente possa se remexer na cultura das nossas culturas, que antes de ser nossa, foi de lá do começo dos tempos, de lá de onde vêm todas as cores, passando passando pelo mundo todo. Pois o que vem do Brasil para o futuro, se vier, há de ser de outra cor, de todas as cores, que foram as cores de todo muno lá longe, lá bem distante, lá onde todos eram assim que nem confeti, tudo colorido, nos tempos do começo da diáspora. A diáspora não como dispersar de povos e etnias, mas como rodopiar pelo mundo e, a partir daí, se encontrar, separar, acrescentar, modificar. A diáspora não como algo que aconteceu no passado, rompendo; mas a diáspora como no aqui e agora, irrompendo, onde o fora e o dentro se tocam, se fundem e se con-fundem. A diáspora não só no agora, o momento presente, mas no durante, aquele fluxo de tempo onde nem começo nem fim se diferenciam por serem opostos, e sim por serem apenas diferentes.
E no caminho da diáspora humana, acontecimento universal, eis o Brasil, passagem idílica para o futuro. Para explicar isso, tem a política, a economia, a sociologia, tem história, psicologia e antropologia também. Eu prefiro entender do modo como entendi tudo quando vi aquele programa de televisão, como metáfora: é porque o Brasil outra coisa não é do que um saquinho cheio de confeti...
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