sábado, 11 de fevereiro de 2012

DIA DESTES – DORES DE AMORES

Dia destes, como tantos outros amantes antes de mim, eu pensava sobre as dores de amores, turbilhão de sentimentos que revela à pessoa que está vivendo essas dores como é absurda a existência humana. As dores de amores fazem doer tão profundo, fazem comover, fazem confundir. Ai, como são mesmo doídas as dores dos amores...
- Pra que viver tanta dor? Viver dor de amor não tem razão de ser, não faz sentido, não é justo, não serve pra nada, pensa o amante sofredor. Mas talvez não seja bem assim, talvez viver dores de amores possa servir ao menos para entendermos melhor a física quântica.
Pois é, nessas horas, horas de amores em dor, a gente até consegue entender um pouco de física quântica, quando ela diz que uma partícula pode estar em dois lugares ao mesmo tempo.
- Uma partícula em dois lugares ao mesmo tempo?!?!?!?!?!?! Como assim?!?!?!?!?!?! Ora, se somos matéria, e matéria é feita de átomo, que é feita de partícula, logo, somos partícula?!?!?!?!?!?! Então, se somos partícula, é possível a gente estar em dois lugares a um só tempo?!?!?!?!?!?! Como assim?!?!?!?!?!?!
- Você já amou?
- Sim.
- Já viveu uma dor de amor?
- Sim.
- Então, isso é uma partícula: você fracionado em dois, dual, paradoxal, complemento e oposto, tudo num mesmo instante.
- Ah, entendi!
Nas dores de amor, a partícula (eu, você, cada um de nós aqui presente) está mesmo em dois lugares num só instante: te odeio-te amo, sai-fica, me esquece-pensa em mim, nunca mais-pra sempre. O sim e o não tão presentes tão ausentes, a fé e a razão, o dia que passou, o dia que não virá.
Nas dores de amores, a mera partícula (eu, você, cada um de nós aqui presente) não pode ser um todo. Acreditar que existe um mundo da inteireza, do tangível e da razão, isso sim não faz nenhum sentido pra quem está num momento de dores e de amores ao mesmo tempo, um momento sempre tão particular pra quem vive sua dor de amor.
Sem dúvida, é possível chegar a alguma compreensão da física quântica por outros percursos que não o da dor de amor, assim como é possível viver a dor de amor só no físico, só na carne, sem fisica, nem metafísica, sem lições para aprender. Viver na pura dor do corpo, do físico: o coração contorcido, doendo, remoendo; o fogo consumindo as entranhas e os humores, devolvendo líquidos e o desejo de fazer amor; o tapa na cara. É possível viver as dores de amores e só. Viver as dores de amor. Só sentindo. Só sofrendo. Só vivendo. Sim, é possível viver a dor do amor e só. Muita dor, tanto amor e mais nada. Nada.
Viver a dor de amor no físico é basicamente lembrar a dor e esquecer o amor, porque nessa dimensão a dor dói mais do que ama o amor. Os discursos amorosos no tempo de dor são do tamanho da dor, enormes, grandiosos, infinitos, enquanto o amor se apequena e se esquece. Porque o amor é assim mesmo, pequeno, feito de pequenas coisas na ordem do dia, na rotina das horas.
E assim é que, em tempos de dores de amores doendo no físico, resplandece a dor, enquanto se apaga o amor. Porque o amor não é para ser visto de longe, como estrela de primeira grandeza. Isso cabe bem a dor, que gosta de ser percebida e paparicada. O amor prefere ser vivido na insignificância de sua particularidade, prefere falar em silêncio, mostrar-se assim mesmo, pequenino, por baixo do véu de dor que lhe cobre a face. O amor se deixa pra lá, para que a dor possa se mostrar e, quem sabe, até passar.
O amor e a dor andam mesmo juntos muitas vezes, às vezes mais amor, às vezes mais dor. E assim juntos, eles vão e vêm, se separando e se repelindo. Porque só pode ser assim, o inverso: quanto mais amor, menos dor; onde muita dor, pouco amor; se toda dor, nenhum amor.
- Só pode mesmo ser assim, ao inverso? E no verso?
Verso? Fala sério! Versos são coisa de poeta, e aqui não fala nem escreve nenhum poeta. Quem aqui fala e escreve não é nem ninguém, é só uma partícula que se inscreve no instante remoto de uma vida, para logo depois, ser esquecida.
Verso...
Ah, dores de amores. Serves para alguma coisa? Não serves para nada? Físico, física, metafísica...
Verso...
Ah, dores de amores, me deixa, vai. Queres ficar num lugar bacana, de destaque? Então, toma essas linhas e vai embora. Ganha o mundo, brilha, faz o que quiser, sei lá, mas larga de mim. Preciso voltar ao mundo das cores, favores, tratores, voltar a um mundo qualquer. Talvez no mundo de algum livro. Isso, um livro, um livro sobre física quântica! Um livro meio ciência, meio literatura, coisa pra leigo, pra curioso. Já sei, Alice no país do quantum. Já li, vou ler de novo.
Então, toma, toma dores de amores, toma essas linhas, devem te bastar. Sei que não é muito, mas é tudo o que tenho por agora. Fique com tudo. Vai, anda, segue teu caminho. Cansei de te escrever, de te pensar. Vou já fazer outra coisa, vou ler. Mas antes, um breve repouso, estou fatigada. Preciso calar.
 
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