sexta-feira, 18 de maio de 2012

Dia destes me coloquei a contemplar um imenso azul céu e água. Essa beleza, que era azul mas não blue, a encontrei numa dessa imagens que os computadores nos oferecem em suas pastas de imagem default. Adoro essas pastas, e foi numa delas que encontrei esse azul.

A contemplação daquele azul me fez sentir como se estivesse eu num fim de tarde. O azul todo azul da imagem default parece como um fim de tarde pois o azul traz uns matizes, e esses são lilás. Como um dia de outono quase inverno; frio, portanto, mas nem tanto. E nesse lugar tão azul o horizonte quase já nem se percebe. Água e céu se tocam, e de repente tudo se faz aquecido.

Naquele horizonte que quase já não se percebe, mas se percebe mesmo assim, pousam nuvens plúmbeas, ainda úmidas da última chuva. Cheias e voluptuosas, abrem passagem para o céu, que se mostra em réstias de sol, do sol que se põe, bem ali no horizonte. É fim de tarde. Contemplemos.

A imagem, default e belíssima, de tão azul parece óbvia. À primeira vista, tudo parece ser percebido, pois é tudo muito igual. É tudo azul, é tudo água, tudo suor, tudo vapor. Tudo éter e etéreo. Tudo azul. Mas entre eu e o azul, percebe-se a humanidade, que se revela numa ponte ou quase ponte, que irrompe sobre o azul.

A imagem é do encontro da água com o céu; cerca de uma porção de água para três porções de céu. O céu abriga nuvens fartas, prateadas, férteis, pousadas na linha do horizonte e espaçadas entre si. No zênite, o céu aberto domina e predomina, deixando entrever le rouge et le noir que atravessa por entre as nuvens.

Eu – que olho e contemplo esse azul – olho como quem estivesse no começo do píer, que aponta Noroeste. Eu, mais virada para oeste, fico ali a contemplar, absorta no azul, solta no azul, me sentindo tudo azul. Mas aos poucos se percebem coisas ao longe... coisas que vão piscando, acendendo, se revelando. Então, ao longe, descobrimos pontos de luz, como se viessem de barcos iluminados para atravessar a noite, noite que já quase vem e que se pode ver através das nuvens .

A imagem, default e rara, parece uma pintura, um pluripixel. Alta definição em contemplação. Uma contemplação que aos poucos percebe mais coisas, outras coisas, até terra. Terra ao longe, terra à vista! O que antes parecia tão azul, tudo azul, tudo tão azul, já não era; não era mais nem céu nem água, nem os dois como só um. Então, de repente, de tanto ficar no azul, só no azul, o olho se entregou e viu que no azul do tudo azul tinha mais que céu e água, tinha até mais do que só azul.

Tinha píer, tinha luz, tinha ilhazinha, duas ilhazinhas. Tinha lilás, cinza e marrom. Nem tudo azul, nem tudo céu, nem tudo água. Mas tinha. E tinha muito mais. Bastava parar, olhar, contemplar o tudo azul da imagem default da pasta de imagens do computador.

domingo, 18 de março de 2012

Dia destes eu pensava: nós, povo brasileiro, somos a síntese da diáspora africana de milhares e milhares de anos atrás. Muitas vezes, eu ouvi falar que a humanidade primeiro nasceu no continente África. Mas, então – eu pensava –, como é possível que um mesmo igual tenha dado em tanta diversidade? De fato, quando nasceu a criatura, nasceu um mesmo e igual no mundo. Só que, quando nasceu, já nasceu múltipla e multicolorida.

Pensava eu nessas coisas, quando vi um programa na televisão que explicava isso direitinho, usando uma metáfora que me caiu como uma luva. A metáfora do programa de tevè mostrava esse colorê primordial de raças de maneira simples e muito eficaz: cada grupo representado com porções de confeti, cada grupo de uma cor. Achei perfeita a comparação! Pontinhos amarelo aqui, pontinhos azul ali, pontinhos branco lá, pontinhos vermelho acolá, pontinhos verde, marrom, preto, pontinhos... E pude, enfim, compreender – quando nascemos, nascemos num mesmo lugar, África. E já ali nascemos muitos e diferentes, nascemos coloridos. Como confeti.

E por que seria esse povo, o brasileiro, a síntese da diáspora humana no mundo, saída lá de África?

Bem, porque, como confeti, também somos coloridos. Às vezes me parece mesmo que só aqui, no Brasil (por enquanto), aquelas pequenas porções de gente do começo dos tempos se funde como uma frande imagem, cheia de pixels, cheia de definição, porque somos feitos de muitos pontinhos de cor. Então, parece mesmo que a síntese do projeto Criatura Humana veio dar nestas terras, a Terra Brasilis, como um ponto altamente significativo de vir a ser uma síntese.

Seria mesmo? Afinal, o povo brasileiro não é exatamente igual ao Bom Selvagem, nem exatamente igual Macunaíma. O povo brasileiro é um acontecimento prometido. Não são poucos os pensadores, filósofos e poetas, diregentes, gestores, finaciadores que profetizam: o Brasil tem forte potencial para orientar muitos dos passos do futuro. Falaram assim os totalitários, falaram assim neoliberais, fala assim a gente toda, o mundo todo, hoje em dia.

E nós aqui, só brasileiros, tão coloridos, tão festeiros, tão romeiros, esperando a próxima festa, o próximo carnaval, próxima romaria. E ali vamos nõs, brasileiros, passando com nossos corpos, nossos véus, velas, carros, cordão. Como ir fazer o futuro do mundo, justo nós, só assim tão brasileiros, tão só tupiniquins?

On n'ést pas ni bleu, ni blanc, ni rouge. Nossa cor primeira é o verde e o amarelo. Tem também o branco e o azul, mas o verde e o amarelo são o novo e inesperado, embora na natureza está por todo lugar. Então, esse verde e amarelo pulsa bem no jeito de ser brasileiro. É como se no verde tivesse um punhado de todas as cores, e no amarelo, um punhado de outras mais todas as cores. O verde é escuro, acolhedor; o amarelo, claro, expansivo. O amarelo é quente, aquece. O verde é frio, refresca. É um Brasil que é colorido, mas, como tudo mais no mundo, vem de um duo primordial: o verde e o amarelo. Esse verde e amrelo, que é tão brasilis, colore as outras todas as cores, que começaram em Afica, se espalharam, pelos quatro cantos do mundo e se fundeme se con-fundem por aqui, no Brasil.

Nascer no Brasil é assim mesmo: é nascer tupi outras tribos e guarani; é nascer íbero cristão; é nascer preto; é nascer escravo e quase escravo. E é também nascer acreditando que somos menos que outros colonizados de nossa época, porque há colonizadores melhores que outros colonizadores. Como se isso fosse possível!

Se é verdade que o Brasil é o país do futuro e se é verdade que o futuro é agora, então o Brasil só pode ser esperança justamente porque é outra coisa bem diferente de todas as outras coisas que certos colonizadores fizeram o mundo acreditar, a começar de que o que eles sabem é o que é bom para o mundo. Se a cultura dos dominadores anglo-saxões fossa a melhor, não resultaria nem Hitler nem Roosevelt. Ambas propostas (que são só uma mesma coisa) são fruto do que a cultura colonizadora diz ser o melhor de sua proposta de superioridade civilizatória, a ciência: eugenia para a Europa bárbara; bomba atômica para a América yankee.

Em certa medida, pode-se dizer que a Segunda Guerra Mundial foi o ápice de sua proposta colonizadora, o zênite de uma civilização, que, rumo ao nadir, lança suas derradeiras idéias nos países neo-colonizados, inclusive depois da Segunda Guerra, como as ditaduras dos anos 60-80-80-90, inclusive no Brasil, e ainda hoje, pleno século 21, com as bizarras ocupações dos povos produtores de petróleo, principalmente no Oriente, o velho oriente. Então, se o Brasil propuser um futuro, mesmo com esse seu povo meio assim desengonçado, não há de ser para fazer do futuro um repeteco chocho do passado. Xô, passado, xô, século 20, chega de sua refutável comprovação científica aplicada às dores e torturas de tantos povos!

Aqui é Brasil. E, se é Brasil, é um pouco mais verde e amarelo, embora com todas as cores. Se é mais cores, é mais definição. Será? Que imagem é essa que se vê quando se vê o Brasil de longe e de fora, esse lugar todo feito do confeti das migrações? Há sofrimento, há esquecimentos, muita desventura ainda vive o povo do Brasil, que nem consegue ver o que tanta gente vê em nós: o futuro, e não qualquer futuro, um futuro promissor. Mas se o mundo (ou alguns desse mundo) estiver certo quando diz que somos o portal para o futuro, deve ser possível que a gente se mostre assim mesmo, na essência tupiniquim, meio samba, suor e cerveja; meio cordão, meio procissão, meio pipoca.

E gingando praqui, ginando pracolá, a gente possa se remexer na cultura das nossas culturas, que antes de ser nossa, foi de lá do começo dos tempos, de lá de onde vêm todas as cores, passando passando pelo mundo todo. Pois o que vem do Brasil para o futuro, se vier, há de ser de outra cor, de todas as cores, que foram as cores de todo muno lá longe, lá bem distante, lá onde todos eram assim que nem confeti, tudo colorido, nos tempos do começo da diáspora. A diáspora não como dispersar de povos e etnias, mas como rodopiar pelo mundo e, a partir daí, se encontrar, separar, acrescentar, modificar. A diáspora não como algo que aconteceu no passado, rompendo; mas a diáspora como no aqui e agora, irrompendo, onde o fora e o dentro se tocam, se fundem e se con-fundem. A diáspora não só no agora, o momento presente, mas no durante, aquele fluxo de tempo onde nem começo nem fim se diferenciam por serem opostos, e sim por serem apenas diferentes.

E no caminho da diáspora humana, acontecimento universal, eis o Brasil, passagem idílica para o futuro. Para explicar isso, tem a política, a economia, a sociologia, tem história, psicologia e antropologia também. Eu prefiro entender do modo como entendi tudo quando vi aquele programa de televisão, como metáfora: é porque o Brasil outra coisa não é do que um saquinho cheio de confeti...

sábado, 11 de fevereiro de 2012

DIA DESTES – DORES DE AMORES

Dia destes, como tantos outros amantes antes de mim, eu pensava sobre as dores de amores, turbilhão de sentimentos que revela à pessoa que está vivendo essas dores como é absurda a existência humana. As dores de amores fazem doer tão profundo, fazem comover, fazem confundir. Ai, como são mesmo doídas as dores dos amores...
- Pra que viver tanta dor? Viver dor de amor não tem razão de ser, não faz sentido, não é justo, não serve pra nada, pensa o amante sofredor. Mas talvez não seja bem assim, talvez viver dores de amores possa servir ao menos para entendermos melhor a física quântica.
Pois é, nessas horas, horas de amores em dor, a gente até consegue entender um pouco de física quântica, quando ela diz que uma partícula pode estar em dois lugares ao mesmo tempo.
- Uma partícula em dois lugares ao mesmo tempo?!?!?!?!?!?! Como assim?!?!?!?!?!?! Ora, se somos matéria, e matéria é feita de átomo, que é feita de partícula, logo, somos partícula?!?!?!?!?!?! Então, se somos partícula, é possível a gente estar em dois lugares a um só tempo?!?!?!?!?!?! Como assim?!?!?!?!?!?!
- Você já amou?
- Sim.
- Já viveu uma dor de amor?
- Sim.
- Então, isso é uma partícula: você fracionado em dois, dual, paradoxal, complemento e oposto, tudo num mesmo instante.
- Ah, entendi!
Nas dores de amor, a partícula (eu, você, cada um de nós aqui presente) está mesmo em dois lugares num só instante: te odeio-te amo, sai-fica, me esquece-pensa em mim, nunca mais-pra sempre. O sim e o não tão presentes tão ausentes, a fé e a razão, o dia que passou, o dia que não virá.
Nas dores de amores, a mera partícula (eu, você, cada um de nós aqui presente) não pode ser um todo. Acreditar que existe um mundo da inteireza, do tangível e da razão, isso sim não faz nenhum sentido pra quem está num momento de dores e de amores ao mesmo tempo, um momento sempre tão particular pra quem vive sua dor de amor.
Sem dúvida, é possível chegar a alguma compreensão da física quântica por outros percursos que não o da dor de amor, assim como é possível viver a dor de amor só no físico, só na carne, sem fisica, nem metafísica, sem lições para aprender. Viver na pura dor do corpo, do físico: o coração contorcido, doendo, remoendo; o fogo consumindo as entranhas e os humores, devolvendo líquidos e o desejo de fazer amor; o tapa na cara. É possível viver as dores de amores e só. Viver as dores de amor. Só sentindo. Só sofrendo. Só vivendo. Sim, é possível viver a dor do amor e só. Muita dor, tanto amor e mais nada. Nada.
Viver a dor de amor no físico é basicamente lembrar a dor e esquecer o amor, porque nessa dimensão a dor dói mais do que ama o amor. Os discursos amorosos no tempo de dor são do tamanho da dor, enormes, grandiosos, infinitos, enquanto o amor se apequena e se esquece. Porque o amor é assim mesmo, pequeno, feito de pequenas coisas na ordem do dia, na rotina das horas.
E assim é que, em tempos de dores de amores doendo no físico, resplandece a dor, enquanto se apaga o amor. Porque o amor não é para ser visto de longe, como estrela de primeira grandeza. Isso cabe bem a dor, que gosta de ser percebida e paparicada. O amor prefere ser vivido na insignificância de sua particularidade, prefere falar em silêncio, mostrar-se assim mesmo, pequenino, por baixo do véu de dor que lhe cobre a face. O amor se deixa pra lá, para que a dor possa se mostrar e, quem sabe, até passar.
O amor e a dor andam mesmo juntos muitas vezes, às vezes mais amor, às vezes mais dor. E assim juntos, eles vão e vêm, se separando e se repelindo. Porque só pode ser assim, o inverso: quanto mais amor, menos dor; onde muita dor, pouco amor; se toda dor, nenhum amor.
- Só pode mesmo ser assim, ao inverso? E no verso?
Verso? Fala sério! Versos são coisa de poeta, e aqui não fala nem escreve nenhum poeta. Quem aqui fala e escreve não é nem ninguém, é só uma partícula que se inscreve no instante remoto de uma vida, para logo depois, ser esquecida.
Verso...
Ah, dores de amores. Serves para alguma coisa? Não serves para nada? Físico, física, metafísica...
Verso...
Ah, dores de amores, me deixa, vai. Queres ficar num lugar bacana, de destaque? Então, toma essas linhas e vai embora. Ganha o mundo, brilha, faz o que quiser, sei lá, mas larga de mim. Preciso voltar ao mundo das cores, favores, tratores, voltar a um mundo qualquer. Talvez no mundo de algum livro. Isso, um livro, um livro sobre física quântica! Um livro meio ciência, meio literatura, coisa pra leigo, pra curioso. Já sei, Alice no país do quantum. Já li, vou ler de novo.
Então, toma, toma dores de amores, toma essas linhas, devem te bastar. Sei que não é muito, mas é tudo o que tenho por agora. Fique com tudo. Vai, anda, segue teu caminho. Cansei de te escrever, de te pensar. Vou já fazer outra coisa, vou ler. Mas antes, um breve repouso, estou fatigada. Preciso calar.
 
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