Dia destes eu pensava, querendo saber: será a diplomacia uma competência do povo brasileiro? Em geral, o brasileiro tem algumas marcas quando anda pelo mundo afora. Algumas, ótimas; outras, nem tanto. Mas nossa alegria, nossa acolhida aos que vêm de fora, nossa sincera convicção de que o cara que chega é um sangue bom - nem sempre, mas muitas vezes - parece sugerir que temos uma marcante vocação para a diplomacia.
Conversar, dialogar, ouvir, falar parece ser coisa que agrada o brasileiro, que também gosta muito de música, novela, futebol. O povo brasileiro, todavia, parece não se dar conta disso, dessa força boa e tão adequada aos tempos atuais, essa sua força de ser diplomata.
Por razões que não sei explicar, o povo brasileiro muitas vezes - ainda bem que nem sempre - aje como se tivesse vergonha de si, vergonha de si como alguém que é brasileiro, vergonha de ser brasileiro. Esquisito, mas rola. O que vem de fora ainda é visto como "a última moda" por muitos brasileirinhos que se acham informados e emancipados, cultos e sofisticados. Estranho, mas rola.
A diplomacia deve ser uma profissão importante nos próximos anos. Afinal, como vamos nos relacionar num planeta superpopuloso? Guerras desnecessárias, quem as quer? Por que impor sanções, invasões, privações a outros povos? Quem, nos dias que correm, detêm esse direito/dever? Será que só podemos nos confrontar se for expondo sofrimentos?
Acho que o brasileiro temos passado por coisas intensas desde que resolvemos nos tornar um país marcante. A nós, o destino ou a história veio chamar, conclamando a fazermos ecoar, com nossa ginga e nosso sentimento, as nossas vozes, que na verdade são muito parecidas com as vozes de um bando de gente de outros cantos do mundo. Vocês sabem, somos muito musicais, acho que isso tem a ver com essas coisas intensas que temos vivido no mundo, por estes dias, esses dias em que se abrir para sonoridades diferentes de vozes se faz mister.
A propósito de deixar marcas na história, é curioso isso de querermos ser um país marcante justo quando vivemos numa condição planetária dominante. A mundialização às vezes me põe a pensar: pra que precisamos de países? É um planeta só, tem gente demais e, afinal, os cientistas ainda não conseguiram criar um paraíso para nós... Só tem esse planeta mesmo. Então, pra que países? E por que ser esse ou aquele povo, quando podemos ser simplesmente terrestres? Pra que ser brasileiro? Pra que Brasil? Pra que Brasil na cena diplomática? Vai saber...
quarta-feira, 19 de maio de 2010
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Dia destes me peguei cercada de pessoas que me parecem fascinantes, todas mais ou menos falando de si e, de si falando, falando ao mundo. O primeiro com quem me encontrei foi Edgar Morin em seu livro Meus Demônios. A cada frase desse escritor que sempre me traz grata inspiração, pude ver cenas absolutamente parecidas a outras que também vivi e vivo, apesar da distância espaço-temporal que há entre eu e Edgar.
Comecei a ler seu livro porque estava extenuada intelectualmente. Tinha acabado de preparar um projeto de mestrado em profundo estado de rigor metodológico cientìfico... eu precisava de um refresco. Eu precisava voltar ao mundo real, onde as pessoas falam de si, ainda que em livros. Eu tinha certeza que Edgar Morin e suas histórias de vida em algum sentido me livrariam do pensamento científico ortodoxo. o qual adoro usar, e do qual eu precisava de alguma distância naquele momento. Mas era só um momento e não de todo desligada. Afinal, ler Edgar Morin não é mesmo não pensar em ciência. Pelo contrário, é parar e escutar uma pessoa falando de porque, afinal, vale a pena conhecer e pensar.
Li Edgar um pouco antes de encontrar Clarice Lispector, com quem me deparei numa daquelas circunstâncias que você bem sabe, ou é coincidência ou sincronicidade ou acaso ou ainda a providencia divina. Fui à biblioteca buscar livros para as disciplinas do semestre e deparei-me com uma surpresa: os títulos da Comunicação estavam em ala nova do acervo ampliado! Uau, que vontade de ver as novidades, os livros mais novos, os que estão resistindo ao tempo. Resolvi pegar primeiro os das disciplinas e então passei pesquisa livre de títulos. E aí começou o destino a agir.
Entre os títulos da prateleira, dois me chamaram atenção. Um era de Clarice Lispector sobre jornalismo o outro sobre a Clarice jornalista. A mão coçou, mas deixei-os ali. E segui para meus compromissos seguintes; um deles, ir ao cinema. Fui ver Julia e Julie - opa, mas uma história de gente, de vida, mesmo que em livro, mesmo que em filme. Ao final da sessão, na livraria do cine, encontro exposta em destaque uma pilha de obras dela mesma, Clarice. A mão já não coçava, agia. Olhei os títulos. Queria todos. Trouxe um: Perto do Coração Selvagem. E pra melhorar o milagre, o acaso, a coincidência, ainda fui presenteada por meu grande amor com o livro do filme que acabáramos de assistir, escrito por Julie Powell.
A história que Julie Powell conta é a sua própria história, que por sua vez se inspirava numa outra história de vida, a de Julia Child. A essa altura, livros, filmes, narrativas, vidas, vidas narradas, vidas idelizadas, vidas escritas, vidas filmadas, tudo junto se acumulava na minha mente, no meu coração, pronto para jorrar em palavras simples, singelas, cotidianas num blog, essa invenção bacana de se ter.
O tempo da comunicação de massa insiste, persiste. Tende a ficar. Mas vive convivendo complexamente e de maneira selvagem com o tempo da comunicação interativa. Quem é que quer falar para bilhões, se pode interagir com algumas centenas, quiçá milhares? Se falar a bilhões, ótimo. Se não falar, ótimo também. E se não falar com ninguém, ainda é ótimo. Edgar, Clarice e Julia são de um tempo que nem todos podiam publicar. Julie e eu somos de um tempo em que muitos podem publicar e publicam. E assim, como que ao acaso, como que por sorte, por coincidência, vão encontrando seus públicos.
No tempo da comunicação interativa, este tempo que é o nosso, o escritor pode até pensar que não é lido, visto, ouvido e comentado, mas é. Em ínfima escala, em magnânima escala, a voz ecoa. O poeta pode baixar, o filósofo, o louco e o bobo também, que o escritor do século 21 escreve e publica. Publica em blog, publica do jeito que quiser. Pode falar de comida, de filme, de foto, de gente, de real, irreal, pode falar do que for. E publicar. O silêncio do leitor pode até ser longo, durar a vida inteira do escritor. Mas o seu dote, o seu dom, o seu êxtase de escritor terá sido possível...
Comecei a ler seu livro porque estava extenuada intelectualmente. Tinha acabado de preparar um projeto de mestrado em profundo estado de rigor metodológico cientìfico... eu precisava de um refresco. Eu precisava voltar ao mundo real, onde as pessoas falam de si, ainda que em livros. Eu tinha certeza que Edgar Morin e suas histórias de vida em algum sentido me livrariam do pensamento científico ortodoxo. o qual adoro usar, e do qual eu precisava de alguma distância naquele momento. Mas era só um momento e não de todo desligada. Afinal, ler Edgar Morin não é mesmo não pensar em ciência. Pelo contrário, é parar e escutar uma pessoa falando de porque, afinal, vale a pena conhecer e pensar.
Li Edgar um pouco antes de encontrar Clarice Lispector, com quem me deparei numa daquelas circunstâncias que você bem sabe, ou é coincidência ou sincronicidade ou acaso ou ainda a providencia divina. Fui à biblioteca buscar livros para as disciplinas do semestre e deparei-me com uma surpresa: os títulos da Comunicação estavam em ala nova do acervo ampliado! Uau, que vontade de ver as novidades, os livros mais novos, os que estão resistindo ao tempo. Resolvi pegar primeiro os das disciplinas e então passei pesquisa livre de títulos. E aí começou o destino a agir.
Entre os títulos da prateleira, dois me chamaram atenção. Um era de Clarice Lispector sobre jornalismo o outro sobre a Clarice jornalista. A mão coçou, mas deixei-os ali. E segui para meus compromissos seguintes; um deles, ir ao cinema. Fui ver Julia e Julie - opa, mas uma história de gente, de vida, mesmo que em livro, mesmo que em filme. Ao final da sessão, na livraria do cine, encontro exposta em destaque uma pilha de obras dela mesma, Clarice. A mão já não coçava, agia. Olhei os títulos. Queria todos. Trouxe um: Perto do Coração Selvagem. E pra melhorar o milagre, o acaso, a coincidência, ainda fui presenteada por meu grande amor com o livro do filme que acabáramos de assistir, escrito por Julie Powell.
A história que Julie Powell conta é a sua própria história, que por sua vez se inspirava numa outra história de vida, a de Julia Child. A essa altura, livros, filmes, narrativas, vidas, vidas narradas, vidas idelizadas, vidas escritas, vidas filmadas, tudo junto se acumulava na minha mente, no meu coração, pronto para jorrar em palavras simples, singelas, cotidianas num blog, essa invenção bacana de se ter.
O tempo da comunicação de massa insiste, persiste. Tende a ficar. Mas vive convivendo complexamente e de maneira selvagem com o tempo da comunicação interativa. Quem é que quer falar para bilhões, se pode interagir com algumas centenas, quiçá milhares? Se falar a bilhões, ótimo. Se não falar, ótimo também. E se não falar com ninguém, ainda é ótimo. Edgar, Clarice e Julia são de um tempo que nem todos podiam publicar. Julie e eu somos de um tempo em que muitos podem publicar e publicam. E assim, como que ao acaso, como que por sorte, por coincidência, vão encontrando seus públicos.
No tempo da comunicação interativa, este tempo que é o nosso, o escritor pode até pensar que não é lido, visto, ouvido e comentado, mas é. Em ínfima escala, em magnânima escala, a voz ecoa. O poeta pode baixar, o filósofo, o louco e o bobo também, que o escritor do século 21 escreve e publica. Publica em blog, publica do jeito que quiser. Pode falar de comida, de filme, de foto, de gente, de real, irreal, pode falar do que for. E publicar. O silêncio do leitor pode até ser longo, durar a vida inteira do escritor. Mas o seu dote, o seu dom, o seu êxtase de escritor terá sido possível...
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