Dia destes fui outra vez acometida pela síndrome do silêncio. Estava eu em sala de aula, enfim estudando com os meus colegas de trabalho, agora meus mestres. Um deles em uma de suas explanações vai e nos diz algo mais ou menos assim sobre escrever em blogs: "Muita gente tem blog que não é lido. Melhor seria mesmo escrever num diário e deixar na gaveta, se ninguém lê."
Viu? Não foi mesmo disso que falei da outra vez? Pra que escrever, se não há leitor?
Foi a esse sentimento que retornei, dia destes. Comecei a indagar-me outra vez do para que escrever coisas assim, ao léu, ao vento? Para que escrever, se não há platéia? Ou: se há, é muda. Naquela hora, ali na aula, serviu-me bem a carapuça. Senti mesmo que estas minhas palavras não tem necessidade alguma de vir a ser. Mesmo assim elas persistem. E brotam. Brotam em forma de blog.
Para que um blog se não há leitor?
A imediata reação é mesmo deixar de escrever, porque parece fazer sentido que só é possível escrever se há leitor. E o leitor do blog aparece nos comentários. Se não há comentário, é porque não há leitor. E se não há leitor, é porque a arte não é boa. Pode ser. Mas será?!
Bem, então, vim aqui outra vez para dizer isso: escreva, mesmo que seja só para si. Mas se tem que escrever, escreva. Inscreva na manifestação de luz de sua existência uma palavra, qualquer palavra, de preferência palavra boa. Boa de se ver uma vez, de se ver outra, de muitas vezes, ver e ouvir aquela boa palavra.
Palavra arteira, como coisa de criança. Cheia de imaginação, de possibilidades, de gentes diferentes. Palavras coloridas, coloridas como Van Gogh. Como Van Gogh ou um de seus van goghs, tudo colorido, tudo lindo.
Mas para que escrever?
Sei lá, pra nada, por coisa alguma, só mesmo para escrever e, assim fazendo, lembrar. Lembrar do que foi e também do que será. Geralmente, falamos de lembrar como coisa do passado. Mas lembrar é também coisa do futuro. De verdade, a melhor lembrança é a lembrança do futuro. Escrever ajuda a lembrar de nosso futuro. Ninguém escreve só porque há leitor, mas todo mundo escreve porque há futuro, porque imagina o futuro, porque entrega-se ao futuro. Entrega-se como palavra, como escritura. Inscrever a lembrança para o futuro,,, escrever.
Escrever é bom e eu gosto.
Escrever por escrever. Escrever para ninguém ou se muito para Van Gogh. Sempre acho que ele fica por ali, quando estou escrevendo. Quando escrevo, sinto em geral minha alma amarela, irradiante, ensolarada. Mesmo se escrevo sobre azuis ou violetas ou cinzas no dia a dia de minhas rotinas, sinto-me dourada quando escrevo. Então, escrever é legal por isso: a gente pode se sentir como uma paleta, um misturador de tintas, um corel draw! Escrever é se colorir, mesmo quando se está dark.
Mas e o leitor?
Na aula, eu logo pensei em Van Gogh: já pensou se ele tivesse pensado em compradores para poder delirar e pintar! "Ah, se minha arte não é consumida, então, vou parar de pintar"... Ainda bem que ele não deu uma de bobinho e continuou pintando... e enlouquecendo. Sorte minha, que adoro Van Gogh! Bom, é claro que não tenho nenhuma ilusão de comparar minhas palavras ao vento, ao léu, com alguma coisa de vangoghiana. Não é isso mesmo, claro que não. Mas o que acho assim um pouco parecido é que ele pintou desde batatas escuras a estrelas muito luminosas, tudo sempre muito amarelo, tudo muito em busca de luz. Escrever é um pouco assim: tirar da sumição que é o escuro do pensamento, para o espectro possível de ser visto, lido e compreendido, o espectro da palavra.
Mas e o comentário? Blog não é também comentário?
Alguns amigos queridos dizem que já passaram por aqui e não deixaram comentário, o que acho francamente natural. Já quis escrever em vários blogs, deixando um comentário, mas sempre me dá uma preguiiiiiiça ... sabe ... macunaíííííma. É, não dá vontade; quer dizer, dá vontade, mas não dá disposição. Ou mesmo não dá vontade. Porque talvez não tenha o que dizer. E blog também é isso por parte do leitor: só falar quando e onde quiser. O comentário como algo merecedor - qualquer que seja o mérito - de poder ser escrito.
Foi mas ou menos isso que pensei enquanto meu querido professor Iasbeck dizia aquelas palavras, palavras que na realidade foram bem mais ligeiras e favoráveis, como ligeiros foram também meus pensamentos, muito mais instantâneos do que esse monte de palavras que precisei inscrever para contar desse meu breve pensamento sobre para que escrever, por que escrever. A fala toda do professor foi a seguinte, enquanto eu tive todo esse pensamento que acabei de contar, incluindo Van Gogh:
"Muita gente tem blog que não é lido. Melhor seria mesmo escrever num diário e deixar na gaveta, se ninguém lê. Mas também por que não publicar? É blog, publica, deixa lá."
Então, tá aí. Pinceladas de pensamento transcritas num enorme discurso acerca do escrever ou não escrever, eis a questão. Me deu uma enorme preguiiiiiiça escrever, mas escrevi mesmo assim. Mesmo que você nunca me tivesse lido.
sexta-feira, 17 de abril de 2009
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