De fato, a capa é belíssima. Tipográfica, tem as letras todas em caixa alta sobre fundo branco, sendo as duas primeiras palavras (PARA QUE) num cinza escuro, as outras duas (SIRVEN LAS) em cinza médio e a última (ARTES), colorida e num corpo maior. O sinal de interrogação - como a obra é em espanhol, tem aquela interrogação invertida no começo, vocês sabem - está num cinza claro, mas ainda bastante visível. O efeito é muito bom. Eu estava ali, encantada com a capa, lendo sobre o conteúdo, quando o menido assim, de repente, vem e diz aquilo: "A resposta é cinza."
A resposta é cinza! Que casualidade boa ouvir isso no estado de espírito em que eu me encontrava naqueles instantes, sensível, com um pouco de choro, um pouco de riso. Eu estava assim, talvez cinza... Eu poderia me dizer cinza naquele momento. Cinza.
... Cinza... O cinza...
O cinza, aquele ponto entre e o branco e o negro que, de tão equilibrado, de tão penetrado de um e de outro, é um terceiro, que não é nem o um, nem o outro. É assim, cinza. Cinza só. Cinza e só.
Não transborda de luz, como o branco; não reflete, não ilumina, não brilha sobre o negro como diamante raro. Não penetra as profundezas, como o preto, não atrai, não suga; não pontilha de alegria, como bolinhas pretas sobre fundo branco. O cinza é o cinza. E só.
É cor elegante, sim. Simpática, aceita a companhia de quase todas as outras cores - vermelho, verde, azul, amarelo, roxo, pink e... ah, muitas outras, até o preto e o branco. O cinza é assim, uma companhia mais ou menos discreta para a presença colorida de outros elementos, outros entes, outras entidades.
A propósito, qual entidade, qual divindade, dentre as muitas tradições, veste cinza? Não conheço nenhuma. Nenhum deus, nenhuma deusa. Será que o cinza não é cor no universo? Será que só há cinza no mundo humano? Puxa, é isso: o cinza é humano! Humano, como a idéia de resposta.
Estamos sempre (ou quase sempre) em busca de respostas para as coisas. Por que isso, por que aquilo? Como isso se deu? Quando terá sido? E quem estava lá? Onde é isso? Isso sem falar nas perguntas filosofais: de onde viemos? para onde vamos? quem somos? E mesmo quando não estamos questionando, nem filosofando, queremos resposta. Mas a resposta, bem viu o menino, a resposta é cinza.
A essa altura talvez vocês, caros leitores, já tenham percebido uma sutileza: o menino viu um símbolo de interrogação, confundindo os termos - pergunta e resposta - mas não se referiu àquilo como pergunta. Ele não disse "a pergunta é cinza", mas "a resposta é cinza". Essa sutileza foi que me chamou a atenção, porque, de fato, as perguntas tendem à precisão, ou é preta ou é branca. Agora, a resposta...
A resposta pode ser satisfatória num momento, mas parece que daqui a pouco a mesma pergunta quer se fazer outra vez. E como sempre precisa: ou preto ou branco? Se assim não fosse, por que teríamos questões que se repetem frequentemente, geração após geração, como se jamais tivessem sido respondidas? A resposta é uma mescla do que a pergunta revela sobre a questão e do que ela esconde. Por isso, uma mesma questão pode se colocar por anos a fio, até mesmo entre os mesmos interlocutores que com que ela estão envolvidos.
Talvez os interlocutores de uma questão, qualquer que seja o intervalo de tempo e de espaço que os une, gostem de colocar e recolocar uma questão - seja preta, seja branca - porque podem brincar de cinza. Afinal, nem o cinza é totalmente cinza. Tem cinza claro, tem cinza escuro e todos os cinzas se combinam entre si. E assim os interlocutores, brincando de cinza até o fim, queiram colocar de novo as mesmas questões em muitos outros livros só pra ver nuances novas do cinza da resposta.
Como o menino que viu um livro lindo, com a resposta cinza.