terça-feira, 14 de julho de 2009

Dia destes me senti de novo como naquela primeira vez em que tive a impressão de ouvir estrelas. Eu era bem menina, e o lugar onde esse contato imediato de sutilíssimo grau se deu foi num quente e passado Rio de Janeiro.
Molhar plantas era minha diversão naquelas noites quentes. Ajudava a refrescar o ar para a noite que iríamos dormir e respirar. Ali eu ficava horas, gastando água, falando com os bichinhos da noite. O céu era estrelado. Aliás, nós não temos céu hoje em dia. Desculpa aí a nostalgia, mas um céu estrelado é tudo de bom. Como é bom falar com estrelas... Numa daquelas noites cariocas, o vento passou e, como sempre faz, arrancou-me dali e me levou longe, tão longe, que daqui a pouco eu... ouvia estrelas!


"Ora, direis, ouvir estrelas! Certo perdeste o senso!"



Atualmente, ouvindo estrelas, astrônomos, astrofísicos e outros cientistas do universo dão conta de coisas passadas e vindouras; mas eles não são tidos como loucos. Estranho, não? Os cientistas têm mais diálogo com as estrelas até do que os loucos, os poetas, os astrólogos, as crianças. Eles conversam por tantos canais e tantas linguagens que chega a ser invejável para o comum dos mortais que também falam com estrelas.
Os astrólogos também têm seus instrumentos, sua lógica, sua matemática. Não entendo muito bem porque alguns acham que astrologia é crendice... Mas deixa pra lá.
Apesar de cientistas e astrólogos serem em alguma medida respeitados por dialogarem com as estrelas usando instrumentos e cálculos, quando o louco, o poeta, a criança e o comum dos mortais dizem, com todas as letras, que ouvem estrelas... "Certo perdeste o senso!", é o que ouvimos.
Antes dos 10 anos eu já "filosofava". Eu me perguntava: por que o universo existe? por que não existe só o vazio, o nada? para que as estrelas? os planetas? as plantas? os bichos? e eu, por que eu existo?
Puxa, eu era bem garota e ainda hoje dizem para gente como a gente que isso é um papo de maluco. Então, como nós, pessoas comuns, não podemos falar abertamente sobre essa nossa experiência sob pena de sermos declarados incapazes por psicanalistas muito doidos, não chegamos ao domínio dessa linguagem, a linguagem das estrelas, que por certo falam com a gente.

Loucos do mundo que falam com estrelas, uni-vos, uni-vos!

Temos que tramar uma rebelião, reivindicar nosso legítimo direito de poder dizer dessa experiência, mesmo a gente não tendo os instrumentos, a matemática e a lógica de astrônomos e astrólogos. Loucos, poetas, crianças, gente comum, conta de suas estrelas, de sua imersão pelo universo, fala de sua eteriedade, seu desmanchar-me em pura luz. Filosofa, canta e dança, toda a musica, a música do tempo, a música das estrelas. Transborda pulsação. Infla e ilumina o universo, dizendo de tuas conversas com as estrelas, porque, afinal, as há. E ainda que não houvera, ainda assim, seria possível.
 
TOPO
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