sábado, 14 de março de 2009

Dia destes, o meu menino caçula viu a capa de um livro que eu tinha em minhas mãos numa livraria, ainda me decidindo se o traria para nossa biblioteca. O livro é o ?PARA QUE SIRVEN LAS ARTES? - e saiu-me com uma daquelas dignas da coluna de Pedro Bloch, na Pais e Filhos, Criança diz cada uma. O menino disse assim: "Hum, que livro lindo! A resposta é cinza!"

De fato, a capa é belíssima. Tipográfica, tem as letras todas em caixa alta sobre fundo branco, sendo as duas primeiras palavras (PARA QUE) num cinza escuro, as outras duas (SIRVEN LAS) em cinza médio e a última (ARTES), colorida e num corpo maior. O sinal de interrogação - como a obra é em espanhol, tem aquela interrogação invertida no começo, vocês sabem - está num cinza claro, mas ainda bastante visível. O efeito é muito bom. Eu estava ali, encantada com a capa, lendo sobre o conteúdo, quando o menido assim, de repente, vem e diz aquilo: "A resposta é cinza."

A resposta é cinza! Que casualidade boa ouvir isso no estado de espírito em que eu me encontrava naqueles instantes, sensível, com um pouco de choro, um pouco de riso. Eu estava assim, talvez cinza... Eu poderia me dizer cinza naquele momento. Cinza.

... Cinza... O cinza...

O cinza, aquele ponto entre e o branco e o negro que, de tão equilibrado, de tão penetrado de um e de outro, é um terceiro, que não é nem o um, nem o outro. É assim, cinza. Cinza só. Cinza e só.

Não transborda de luz, como o branco; não reflete, não ilumina, não brilha sobre o negro como diamante raro. Não penetra as profundezas, como o preto, não atrai, não suga; não pontilha de alegria, como bolinhas pretas sobre fundo branco. O cinza é o cinza. E só.

É cor elegante, sim. Simpática, aceita a companhia de quase todas as outras cores - vermelho, verde, azul, amarelo, roxo, pink e... ah, muitas outras, até o preto e o branco. O cinza é assim, uma companhia mais ou menos discreta para a presença colorida de outros elementos, outros entes, outras entidades.

A propósito, qual entidade, qual divindade, dentre as muitas tradições, veste cinza? Não conheço nenhuma. Nenhum deus, nenhuma deusa. Será que o cinza não é cor no universo? Será que só há cinza no mundo humano? Puxa, é isso: o cinza é humano! Humano, como a idéia de resposta.

Estamos sempre (ou quase sempre) em busca de respostas para as coisas. Por que isso, por que aquilo? Como isso se deu? Quando terá sido? E quem estava lá? Onde é isso? Isso sem falar nas perguntas filosofais: de onde viemos? para onde vamos? quem somos? E mesmo quando não estamos questionando, nem filosofando, queremos resposta. Mas a resposta, bem viu o menino, a resposta é cinza.

A essa altura talvez vocês, caros leitores, já tenham percebido uma sutileza: o menino viu um símbolo de interrogação, confundindo os termos - pergunta e resposta - mas não se referiu àquilo como pergunta. Ele não disse "a pergunta é cinza", mas "a resposta é cinza". Essa sutileza foi que me chamou a atenção, porque, de fato, as perguntas tendem à precisão, ou é preta ou é branca. Agora, a resposta...

A resposta pode ser satisfatória num momento, mas parece que daqui a pouco a mesma pergunta quer se fazer outra vez. E como sempre precisa: ou preto ou branco? Se assim não fosse, por que teríamos questões que se repetem frequentemente, geração após geração, como se jamais tivessem sido respondidas? A resposta é uma mescla do que a pergunta revela sobre a questão e do que ela esconde. Por isso, uma mesma questão pode se colocar por anos a fio, até mesmo entre os mesmos interlocutores que com que ela estão envolvidos.

Talvez os interlocutores de uma questão, qualquer que seja o intervalo de tempo e de espaço que os une, gostem de colocar e recolocar uma questão - seja preta, seja branca - porque podem brincar de cinza. Afinal, nem o cinza é totalmente cinza. Tem cinza claro, tem cinza escuro e todos os cinzas se combinam entre si. E assim os interlocutores, brincando de cinza até o fim, queiram colocar de novo as mesmas questões em muitos outros livros só pra ver nuances novas do cinza da resposta.

Como o menino que viu um livro lindo, com a resposta cinza.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Dia destes eu me dei conta de como é bom ter um dia da mulher! Da mulher, do negro, do pai, da mãe, da criança, do índio, do homossexual, do evangélico, do professor, do estudante, dos avós, de são cosme e são damião, dia de nossa senhora, de nosso senhor, do espírito santo, de natal, da paixão e da páscoa, do contador, do publicitário, do engenheiro, do trabalho, da independência, da pátria, do soldado, de são joão, santo antônio e são pedro, dia de reis, dia de carnaval, dia de cinzas, dia do médico, do cirurgião e do dentista, do metalúrgico, do bancário, da consciência negra, dia do fico, dia de são francisco, de santa clara, dia de todos os santos, dia de nossa senhora de fátima, de lurdes, desatadora de nós, das graças, dia da abolição da escravatura, de iemanjá, d'oxum, de oxóssi, dia de ação de graças, de corpus christi, da cristandade, de ano novo, da paz. Dias, dias e dias, só não tem o dia do homem, do masculino, do másculo. Esse dia é todo dia e, muitas vezes, dia maculado. Que tal um Dia do Homem?
O tema dos gêneros é, para mim, dentre os chatos o mais chato. Mulheres lamuriosas, tentadoras, frívolas, lindas, vítimas, sofredoras... Dúvida não resta de que as mulheres têm sofrido e muito ao longo da história da humanidade. Mas e o que dizer dos homens?
Por uma razão que não sei explicar, sempre sinto grande piedade para a condição do homem contemporâneo. Quão difícil! Gerações e gerações cultivados na condição de estarem sempre livres e dispostos para a força bruta, para o ímpeto, para a guerra, para o ódio, o destempero, desamparo, o desamor.
Mas o que se vê em geral é um grande sofrimento da condição masculina. Se vê? Que bobagem! Como se vê, se está oculto? Por que o homem não pode, às vezes, ser só um homem, um masculino, um homem e só?
Vi na semana que passou uma linda entrevista sobre Annie Leibovitz. Fotógrafa e intensa, Annie registrou grandes acontecimentos, pessoas, situações. Numa delas, John Lennon nu e encarolado, como um feto, ao lado de sua Yoko. Um homem. Só isso mesmo: um homem. Um homem qualquer, um homem que quase nem se vê, um homem que parecia já não mais precisar daquilo ali naquele momento para sempre num instante que daqui há pouco já é passado. A famosa foto foi feita por Annie horas antes de John perder sua vida aqui nesse mundo.
Ver Yoko falar sobre isso, como naquele momento, entregues à íris de Leibovitz, eles estavam tão bem, tão serenos, tão seguros, sem jamais poder imaginar o que aconteceria a eles - e a nós - poucas horas depois... Uma vida - tão frágil - por um triz, por um fio...
E John, o homem, o mito, ficou ali, estranhamente, curiosamente, tragicamente, docemente, menino-feto no útero do mundo, uma foto. Ficou na retícula da fotógrafa, guerreira, emancipada, mulher, homossexual, no fundo de seu olho e dos olhos de todos nós. A imagem de um homem, uma imagem de homem, um certo homem, um dado homem. Dado a uma história atípica e atraente, visada. Visionária? Um homem que canta a mulher, que fica nu com sua mulher. Só isso mesmo: um homem nu e sua mulher. Nada mais que isso. Pra quê?
As mulheres sofrem, as crianças sofrem, e sofrem também os homens. E muito. É só ver um filme épico daqueles das grandes conquistas de grandes desbravadores, homens fortes e destemidos. Já viu O Senhor dos Anéis? Ufa, quem é que aguenta milênios e milênios de confrontos viris e violentos, covardes e brutos diluídos na memória do corpo e das culturas? Os homens, coitados. Mas eles não dizem isso. Nunca. Nunca? Quem sabe?
Os americanos, espetacularizantes que são, de vez em quando dão mostras de quão assombroso pode ser ser homem na sociedade atual. Eles, que em pleno século 21, continuam cultuando conflitos sem sentido, de vez em quando exibem-se para a humanidade com porções generosas de descrença na condição de ser homem. Ser homem pra quê? Pra um país que não sabe como recebê-los quando voltam mortos, desacreditados, desvalidos? E quando não voltam, detonados nos campos de batalha? Os filmes do cinemão têm contado muitas histórias mais ou menos assim. E de vez em quando - vemos no noticiário - um surta, vai ali na lanchonete, mata um punhado de seus concidadãos e adentra a eternidade descrente do poder superior do homem.
Por essas e por outras, por causa de britânicos, de americanos, de goiano em vôo suicida-infanticida, por causa de ter que dizer sim, quando não dá a mínima, de ter que invadir... países, mulheres, inocências, por tanta coisa que eu poderia dizer, mas que nem vale a pena dizer, sobretudo por isso, porque sou eu que digo. Eu, que sou mulher...
Será que essa peninha que sinto por eles não é aquela velha e conhecida, sempre chata, síndrome da mulher-mãe-bondosa-e-piedosa-haja-o-que-houver? Pode ser, deve ser. Quem sabe? E que diferença faz?
Homens são viris, poderosos, gulosos, são amigos, inteligentes e engraçados... entre eles... principalmente entre eles. Entre eles, além da gula, da amizada, da graça, o que será que se diz? O que será que se pensa? O que sente? Quem é que sabe? Afinal, não tem dia do homem. Tem dia de tudo e de todos, e quem não tem, tá indo atrás pra ter. Só o homem, não. Não tem o Dia do Homem.
Ele não tem dia, ele não tem data. Seu tempo é todo, sua força é toda, sua entrega... Ele não tem dia e como não tem dia, ninguém tira nem um dia para falar do homem, esse pobre coitado, esse esquecido, esse abandonado. Esse, que de tão poderoso, tão dono e senhor de todos os dias, nunca é lembrado, nunca homenageado. Tá ali, na nossa frente, o dia todo, todo dia. E por que não tem dia, ninguém se lembra de suas dores e dissabores. E ele nem deve falar de seus amores...
Ele não tem dia, ele não tem data. Se tivesse um dia - basta um dia - nesse dia, se poderia falar do ser homem. Mas se não tem dia, não tem hora, nem tem data, esse homem nunca vai ser comentado. Coitado, nunca falado, lembrado, noticiado, pautado, investigado, pesquisado. Revirado, negado, afirmado, reafirmado, renegado, ele fica do jeito que está, imenso, absoluto, senhor de todos os dias mas sem dia nenhum.
E é por isso que digo: como é bom ter um dia, um dia da mulher. Da mulher, d...
 
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