terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Dia destes fui outra vez acometida pela idéia da escutatória. Eu pensava sobre isso - sobre a necessidade de escutar mais que falar - há algum tempo, há muito tempo. Eu me indagava porque para nos mostrarmos vivos e felizes e realizados temos que falar, falar, falar? Por que não podemos ficar em silêncio na presença uns dos outros sempre que quisermos, sempre que precisarmos? Por que as conexões entre a gente tem que ser pela fala, ou pelo gesto, pelo som, até pelo ruído? Por que nossas conexões não podem ser também pelo silêncio? Ou ao menos pela escuta?
Pensava eu mais ou menos assim, quando conheci um texto do Rubem Alves, um texto de interessantes idéias e relatos com curioso nome: A Escutatória. Ali, ele fala de suas sensações para com a escuta, retomando coisas parecidas com aquelas de que eu falei no começo deste texto, e fala também de outros povos, outros autores, outras experiências - inclusive vividas por ele - que falam disso: da necessidade de aquietar as próprias falas interiores, abrindo assim espaço para o silencio e também para a fala do outro.
Nesse ponto, o texto de Rubem Alves se torna ainda mais interessante, exatamente por causa dessa portinhola que ele nos abre, que é poder pensar no silêncio como uma oportunidade para ouvir em profundidade e extensão. Ouvir bem porque se está vazio. Vazio de idéias, vazio de palavras, vazio de sua filosofia, vazio de si.
Esse tipo de pensamento de vez em quando vai e vem em mim. E um dia destes, quando ele veio dar em mim outra vez, veio acompanhado da hipótese de não escrever coisa alguma por um tempo. Não escrever nem em blog, nem em cadernos, nem em coisa alguma. Assim foi que fiquei outro longo período sem escrever por aqui e por ali. Isto é... mais ou menos sem escrever... Porque a escritura mais difícil de conter - a escrita das idéias no pensamento - essa eu não soube mesmo, nem sei, como domar, como dominar. E esquecer.
Por isso, resolvi voltar à minha oratória (ou seria falatório?) e escrever estas linhas, sabendo, admitindo que não posso ou não sei ou não quero esquecer essas idéias, essa possibilidade de dizer ainda uma coisa, falar e falar, dizer dessa vã filosofia que eu sou. Quero que essas palavras possam ser um pouco lidas, um pouco contidas, um pouco esquecidas e, de alguma maneira, um pouco aproximadas das sensações de Alves, de Caeiro, das mulheres, das mulheres nordestinas, de Lichtenberg, de Mendes, de Jovelino, dos índios, de pianistas, de Fernando Pessoa, Mallarmé, Debussy, de tantos que de dentro ou de fora do texto de Rubem e de dentro ou de fora deste meu texto queiram pensar no silêncio e também na escuta, enquanto a esquecem, enquanto nem se dão conta de que isso existe, enquanto falam-escrevem sem parar sobre os seus temas de vida.
Oh, terrível contrasenso! Como esperar escutar mais e melhor, sabendo que em mim as palavras são tantas e tão frequentes e tão eloquentes que precisam vir a ser, vir a estar escritas? Falo de mim, mas poderia falar de toda a humanidade. Quem, em sã consciência, quer um pouco calar e escutar? Quem, nesses tempos de marketing pessoal?
Talvez uma solução universal, uma data no calendário, um dia santo, um dia sagrado: o dia da escutatória! Um dia de feriado, como o Carnaval, sendo o seu contrário, o seu contrário tão somente no que o carnaval tem de sonoro. Um dia de extrema alegria também, a alegria de ouvir e, mais profundamente, de escutar. De estar com outros, coloridos, por que não? Felizes, alegres, escutantes. Um outro calendário para o século 21, quem sabe até para o terceiro milênio. Um calendário que contivesse num sentido mais - digamos - oculto a pretensão de nos permitir esquecer de nós mesmos por alguns instantes, por um dia. Um dia no calendário dos povos em que mostrar-se mais e melhor e mais articulado que o outro pudesse ser esquecido, não por auto-flagelo, nem por indulgência, mas sim por clareza. A clareza de só escutar e, nesse instante, saber e apreender o sabido, o que revelou-se durante a mudez dos povos, no dia do novo feriado da humanidade.
Nesse dia de total silêncio (total tanto quanto possível), ficaríamos ali, assim, esquecidos. Esquecidos deste Dia Destes, esquecidos de Rubem Alves, esquecidos de toda palavra, de toda conversa, sabendo que, quando chegasse o novo dia, o dia seguinte após o Feriado da Escutatória, teríamos muito o que falar, falar como nunca. Afinal, teríamos ouvido tanto do silêncio mais que profundo, que estaríamos aptos a falar sobre muitas coisas, sobre as coisas todas do Universo - mesmo que sem proferir palavra alguma.
Ah, tolice, devaneios. Vamos voltar. Voltar à coisa simples. À palavra. Às palavras neste blog. Vamos à fala, à oratória, à falatória. E quem sabe por esse caminho, chegar à escutatoria, se necessário for...
Vou tentar escrever muito nesse blog, que nem sei se é lido ou esquecido ou falado. Ou escutado. Vou escrever, para ver se assim esvazio as coisas escritas e faladas e conversadas no meu pensamento. E assim me esvaziando e me desfazendo disso e daquilo, seguir ouvindo ainda mais atentamente. Até o esquecimento.
Deixa ver o que o burburinho do meu pensamento tem para nos oferecer para um próximo post... Fala, pensamento, fala!
 
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