terça-feira, 17 de novembro de 2009

Dia destes, falei do escrever, escrever em blog, essas coisas. Falei do leitor, do comentário, do presente, passado futuro. Falei de ter leitores, mesmo que sem comentários, ou poucos. Falei de poder dar-se um tempo, antes de escrever outra vez. Falei e quero falar um pouco mais sobre essas coisas de um blog.

O blog pode ser diário, anuário, semanário, que diferença faz? Se seu autor/autores estão vivos, mortos, se escrevem hoje ontem ou sempre, isso não importa. Quantas obras vão conhecer sua glória anos, às vezes milênios depois de morto ou mortos quem lhes criou? Tudo isso não faz diferença. O blog, a blogosfera é um continuum. Haverá obras raras na grande rede de computadores, obras blogueiras de poucos fruidores. Por que não? Um blog de poucos leitores ao longo dos tempos.

O tempo de leitura na rede pode se prolongar por longos períodos, pois a obra está publicada. É como se Machado de Assis, em seu tempo, tivesse sido blogueiro e fosse escrevendo e publicando direto no blog, e os leitores daquele tempo tivessem deixado algum registro nos comentários. E nós, desse tempo, entrássemos lá para nos deliciar com Machado e também pudéssemos continuar deixando comentários, de todos aqueles conteúdos, até dos escritos de seus leitores. Um blog milenar!

Publicar diariamente não é o fim do blogueiro, ao menos de todo o blogueiro. Se o blog é um blog jornalístico diário, então, precisa manter sua periodicida. Mas se não for essa a finalidade do blogueiro, essa alternativa de publicação pode ser descartada. Talvez, nem haja um fim, uma finalidade para se fazer um determinado blog. Fazer é indispensável, mas não é o fim. Escrever diariamente é o sonho de gerações; quantas pessoas no mundo já não desejaram ser escritor e apenas escritor em sua profissão? O blog favorece isso: enfim, livres dos grilhões de não poder ser escritor e livre para poder sê-lo todo o dia, o tempo todo.

Mas se o tempo estiver curto para ser blogueiro todo dia, seja enquanto puder. Até porque esse suposto blog pode ser apenas um dos campos de expressão daquele que se quer escritor ali. Além de blogueiro, esse escritor pode ser também um escritor burocrático, um escritor científico, um escritor amigo, um escritor fortuito.

Se dê o tempo que precisar para escrever suas linhas. O artista blogueiro precisa reabastecer sua alma para gerar a obra. E quando chega o seu momento de ser escritor blogueiro, mesmo que esse momento seja apenas uma fagulha na eternidade, ele escreve mesmo assim. E nesse breve instante em que seu blog se faz luz, se ali houver um leitor, ainda que raro, sua palavra pode ser lida e, quiçá, comentada. Um blog é escritura para todo o tempo, mesmo quando o tempo de hoje já passou.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Dia destes me senti de novo como naquela primeira vez em que tive a impressão de ouvir estrelas. Eu era bem menina, e o lugar onde esse contato imediato de sutilíssimo grau se deu foi num quente e passado Rio de Janeiro.
Molhar plantas era minha diversão naquelas noites quentes. Ajudava a refrescar o ar para a noite que iríamos dormir e respirar. Ali eu ficava horas, gastando água, falando com os bichinhos da noite. O céu era estrelado. Aliás, nós não temos céu hoje em dia. Desculpa aí a nostalgia, mas um céu estrelado é tudo de bom. Como é bom falar com estrelas... Numa daquelas noites cariocas, o vento passou e, como sempre faz, arrancou-me dali e me levou longe, tão longe, que daqui a pouco eu... ouvia estrelas!


"Ora, direis, ouvir estrelas! Certo perdeste o senso!"



Atualmente, ouvindo estrelas, astrônomos, astrofísicos e outros cientistas do universo dão conta de coisas passadas e vindouras; mas eles não são tidos como loucos. Estranho, não? Os cientistas têm mais diálogo com as estrelas até do que os loucos, os poetas, os astrólogos, as crianças. Eles conversam por tantos canais e tantas linguagens que chega a ser invejável para o comum dos mortais que também falam com estrelas.
Os astrólogos também têm seus instrumentos, sua lógica, sua matemática. Não entendo muito bem porque alguns acham que astrologia é crendice... Mas deixa pra lá.
Apesar de cientistas e astrólogos serem em alguma medida respeitados por dialogarem com as estrelas usando instrumentos e cálculos, quando o louco, o poeta, a criança e o comum dos mortais dizem, com todas as letras, que ouvem estrelas... "Certo perdeste o senso!", é o que ouvimos.
Antes dos 10 anos eu já "filosofava". Eu me perguntava: por que o universo existe? por que não existe só o vazio, o nada? para que as estrelas? os planetas? as plantas? os bichos? e eu, por que eu existo?
Puxa, eu era bem garota e ainda hoje dizem para gente como a gente que isso é um papo de maluco. Então, como nós, pessoas comuns, não podemos falar abertamente sobre essa nossa experiência sob pena de sermos declarados incapazes por psicanalistas muito doidos, não chegamos ao domínio dessa linguagem, a linguagem das estrelas, que por certo falam com a gente.

Loucos do mundo que falam com estrelas, uni-vos, uni-vos!

Temos que tramar uma rebelião, reivindicar nosso legítimo direito de poder dizer dessa experiência, mesmo a gente não tendo os instrumentos, a matemática e a lógica de astrônomos e astrólogos. Loucos, poetas, crianças, gente comum, conta de suas estrelas, de sua imersão pelo universo, fala de sua eteriedade, seu desmanchar-me em pura luz. Filosofa, canta e dança, toda a musica, a música do tempo, a música das estrelas. Transborda pulsação. Infla e ilumina o universo, dizendo de tuas conversas com as estrelas, porque, afinal, as há. E ainda que não houvera, ainda assim, seria possível.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Dia destes fui outra vez acometida pela síndrome do silêncio. Estava eu em sala de aula, enfim estudando com os meus colegas de trabalho, agora meus mestres. Um deles em uma de suas explanações vai e nos diz algo mais ou menos assim sobre escrever em blogs: "Muita gente tem blog que não é lido. Melhor seria mesmo escrever num diário e deixar na gaveta, se ninguém lê."

Viu? Não foi mesmo disso que falei da outra vez? Pra que escrever, se não há leitor?

Foi a esse sentimento que retornei, dia destes. Comecei a indagar-me outra vez do para que escrever coisas assim, ao léu, ao vento? Para que escrever, se não há platéia? Ou: se há, é muda. Naquela hora, ali na aula, serviu-me bem a carapuça. Senti mesmo que estas minhas palavras não tem necessidade alguma de vir a ser. Mesmo assim elas persistem. E brotam. Brotam em forma de blog.

Para que um blog se não há leitor?

A imediata reação é mesmo deixar de escrever, porque parece fazer sentido que só é possível escrever se há leitor. E o leitor do blog aparece nos comentários. Se não há comentário, é porque não há leitor. E se não há leitor, é porque a arte não é boa. Pode ser. Mas será?!

Bem, então, vim aqui outra vez para dizer isso: escreva, mesmo que seja só para si. Mas se tem que escrever, escreva. Inscreva na manifestação de luz de sua existência uma palavra, qualquer palavra, de preferência palavra boa. Boa de se ver uma vez, de se ver outra, de muitas vezes, ver e ouvir aquela boa palavra.

Palavra arteira, como coisa de criança. Cheia de imaginação, de possibilidades, de gentes diferentes. Palavras coloridas, coloridas como Van Gogh. Como Van Gogh ou um de seus van goghs, tudo colorido, tudo lindo.

Mas para que escrever?

Sei lá, pra nada, por coisa alguma, só mesmo para escrever e, assim fazendo, lembrar. Lembrar do que foi e também do que será. Geralmente, falamos de lembrar como coisa do passado. Mas lembrar é também coisa do futuro. De verdade, a melhor lembrança é a lembrança do futuro. Escrever ajuda a lembrar de nosso futuro. Ninguém escreve só porque há leitor, mas todo mundo escreve porque há futuro, porque imagina o futuro, porque entrega-se ao futuro. Entrega-se como palavra, como escritura. Inscrever a lembrança para o futuro,,, escrever.

Escrever é bom e eu gosto.

Escrever por escrever. Escrever para ninguém ou se muito para Van Gogh. Sempre acho que ele fica por ali, quando estou escrevendo. Quando escrevo, sinto em geral minha alma amarela, irradiante, ensolarada. Mesmo se escrevo sobre azuis ou violetas ou cinzas no dia a dia de minhas rotinas, sinto-me dourada quando escrevo. Então, escrever é legal por isso: a gente pode se sentir como uma paleta, um misturador de tintas, um corel draw! Escrever é se colorir, mesmo quando se está dark.

Mas e o leitor?

Na aula, eu logo pensei em Van Gogh: já pensou se ele tivesse pensado em compradores para poder delirar e pintar! "Ah, se minha arte não é consumida, então, vou parar de pintar"... Ainda bem que ele não deu uma de bobinho e continuou pintando... e enlouquecendo. Sorte minha, que adoro Van Gogh! Bom, é claro que não tenho nenhuma ilusão de comparar minhas palavras ao vento, ao léu, com alguma coisa de vangoghiana. Não é isso mesmo, claro que não. Mas o que acho assim um pouco parecido é que ele pintou desde batatas escuras a estrelas muito luminosas, tudo sempre muito amarelo, tudo muito em busca de luz. Escrever é um pouco assim: tirar da sumição que é o escuro do pensamento, para o espectro possível de ser visto, lido e compreendido, o espectro da palavra.

Mas e o comentário? Blog não é também comentário?

Alguns amigos queridos dizem que já passaram por aqui e não deixaram comentário, o que acho francamente natural. Já quis escrever em vários blogs, deixando um comentário, mas sempre me dá uma preguiiiiiiça ... sabe ... macunaíííííma. É, não dá vontade; quer dizer, dá vontade, mas não dá disposição. Ou mesmo não dá vontade. Porque talvez não tenha o que dizer. E blog também é isso por parte do leitor: só falar quando e onde quiser. O comentário como algo merecedor - qualquer que seja o mérito - de poder ser escrito.

Foi mas ou menos isso que pensei enquanto meu querido professor Iasbeck dizia aquelas palavras, palavras que na realidade foram bem mais ligeiras e favoráveis, como ligeiros foram também meus pensamentos, muito mais instantâneos do que esse monte de palavras que precisei inscrever para contar desse meu breve pensamento sobre para que escrever, por que escrever. A fala toda do professor foi a seguinte, enquanto eu tive todo esse pensamento que acabei de contar, incluindo Van Gogh:

"Muita gente tem blog que não é lido. Melhor seria mesmo escrever num diário e deixar na gaveta, se ninguém lê. Mas também por que não publicar? É blog, publica, deixa lá."

Então, tá aí. Pinceladas de pensamento transcritas num enorme discurso acerca do escrever ou não escrever, eis a questão. Me deu uma enorme preguiiiiiiça escrever, mas escrevi mesmo assim. Mesmo que você nunca me tivesse lido.

sábado, 14 de março de 2009

Dia destes, o meu menino caçula viu a capa de um livro que eu tinha em minhas mãos numa livraria, ainda me decidindo se o traria para nossa biblioteca. O livro é o ?PARA QUE SIRVEN LAS ARTES? - e saiu-me com uma daquelas dignas da coluna de Pedro Bloch, na Pais e Filhos, Criança diz cada uma. O menino disse assim: "Hum, que livro lindo! A resposta é cinza!"

De fato, a capa é belíssima. Tipográfica, tem as letras todas em caixa alta sobre fundo branco, sendo as duas primeiras palavras (PARA QUE) num cinza escuro, as outras duas (SIRVEN LAS) em cinza médio e a última (ARTES), colorida e num corpo maior. O sinal de interrogação - como a obra é em espanhol, tem aquela interrogação invertida no começo, vocês sabem - está num cinza claro, mas ainda bastante visível. O efeito é muito bom. Eu estava ali, encantada com a capa, lendo sobre o conteúdo, quando o menido assim, de repente, vem e diz aquilo: "A resposta é cinza."

A resposta é cinza! Que casualidade boa ouvir isso no estado de espírito em que eu me encontrava naqueles instantes, sensível, com um pouco de choro, um pouco de riso. Eu estava assim, talvez cinza... Eu poderia me dizer cinza naquele momento. Cinza.

... Cinza... O cinza...

O cinza, aquele ponto entre e o branco e o negro que, de tão equilibrado, de tão penetrado de um e de outro, é um terceiro, que não é nem o um, nem o outro. É assim, cinza. Cinza só. Cinza e só.

Não transborda de luz, como o branco; não reflete, não ilumina, não brilha sobre o negro como diamante raro. Não penetra as profundezas, como o preto, não atrai, não suga; não pontilha de alegria, como bolinhas pretas sobre fundo branco. O cinza é o cinza. E só.

É cor elegante, sim. Simpática, aceita a companhia de quase todas as outras cores - vermelho, verde, azul, amarelo, roxo, pink e... ah, muitas outras, até o preto e o branco. O cinza é assim, uma companhia mais ou menos discreta para a presença colorida de outros elementos, outros entes, outras entidades.

A propósito, qual entidade, qual divindade, dentre as muitas tradições, veste cinza? Não conheço nenhuma. Nenhum deus, nenhuma deusa. Será que o cinza não é cor no universo? Será que só há cinza no mundo humano? Puxa, é isso: o cinza é humano! Humano, como a idéia de resposta.

Estamos sempre (ou quase sempre) em busca de respostas para as coisas. Por que isso, por que aquilo? Como isso se deu? Quando terá sido? E quem estava lá? Onde é isso? Isso sem falar nas perguntas filosofais: de onde viemos? para onde vamos? quem somos? E mesmo quando não estamos questionando, nem filosofando, queremos resposta. Mas a resposta, bem viu o menino, a resposta é cinza.

A essa altura talvez vocês, caros leitores, já tenham percebido uma sutileza: o menino viu um símbolo de interrogação, confundindo os termos - pergunta e resposta - mas não se referiu àquilo como pergunta. Ele não disse "a pergunta é cinza", mas "a resposta é cinza". Essa sutileza foi que me chamou a atenção, porque, de fato, as perguntas tendem à precisão, ou é preta ou é branca. Agora, a resposta...

A resposta pode ser satisfatória num momento, mas parece que daqui a pouco a mesma pergunta quer se fazer outra vez. E como sempre precisa: ou preto ou branco? Se assim não fosse, por que teríamos questões que se repetem frequentemente, geração após geração, como se jamais tivessem sido respondidas? A resposta é uma mescla do que a pergunta revela sobre a questão e do que ela esconde. Por isso, uma mesma questão pode se colocar por anos a fio, até mesmo entre os mesmos interlocutores que com que ela estão envolvidos.

Talvez os interlocutores de uma questão, qualquer que seja o intervalo de tempo e de espaço que os une, gostem de colocar e recolocar uma questão - seja preta, seja branca - porque podem brincar de cinza. Afinal, nem o cinza é totalmente cinza. Tem cinza claro, tem cinza escuro e todos os cinzas se combinam entre si. E assim os interlocutores, brincando de cinza até o fim, queiram colocar de novo as mesmas questões em muitos outros livros só pra ver nuances novas do cinza da resposta.

Como o menino que viu um livro lindo, com a resposta cinza.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Dia destes eu me dei conta de como é bom ter um dia da mulher! Da mulher, do negro, do pai, da mãe, da criança, do índio, do homossexual, do evangélico, do professor, do estudante, dos avós, de são cosme e são damião, dia de nossa senhora, de nosso senhor, do espírito santo, de natal, da paixão e da páscoa, do contador, do publicitário, do engenheiro, do trabalho, da independência, da pátria, do soldado, de são joão, santo antônio e são pedro, dia de reis, dia de carnaval, dia de cinzas, dia do médico, do cirurgião e do dentista, do metalúrgico, do bancário, da consciência negra, dia do fico, dia de são francisco, de santa clara, dia de todos os santos, dia de nossa senhora de fátima, de lurdes, desatadora de nós, das graças, dia da abolição da escravatura, de iemanjá, d'oxum, de oxóssi, dia de ação de graças, de corpus christi, da cristandade, de ano novo, da paz. Dias, dias e dias, só não tem o dia do homem, do masculino, do másculo. Esse dia é todo dia e, muitas vezes, dia maculado. Que tal um Dia do Homem?
O tema dos gêneros é, para mim, dentre os chatos o mais chato. Mulheres lamuriosas, tentadoras, frívolas, lindas, vítimas, sofredoras... Dúvida não resta de que as mulheres têm sofrido e muito ao longo da história da humanidade. Mas e o que dizer dos homens?
Por uma razão que não sei explicar, sempre sinto grande piedade para a condição do homem contemporâneo. Quão difícil! Gerações e gerações cultivados na condição de estarem sempre livres e dispostos para a força bruta, para o ímpeto, para a guerra, para o ódio, o destempero, desamparo, o desamor.
Mas o que se vê em geral é um grande sofrimento da condição masculina. Se vê? Que bobagem! Como se vê, se está oculto? Por que o homem não pode, às vezes, ser só um homem, um masculino, um homem e só?
Vi na semana que passou uma linda entrevista sobre Annie Leibovitz. Fotógrafa e intensa, Annie registrou grandes acontecimentos, pessoas, situações. Numa delas, John Lennon nu e encarolado, como um feto, ao lado de sua Yoko. Um homem. Só isso mesmo: um homem. Um homem qualquer, um homem que quase nem se vê, um homem que parecia já não mais precisar daquilo ali naquele momento para sempre num instante que daqui há pouco já é passado. A famosa foto foi feita por Annie horas antes de John perder sua vida aqui nesse mundo.
Ver Yoko falar sobre isso, como naquele momento, entregues à íris de Leibovitz, eles estavam tão bem, tão serenos, tão seguros, sem jamais poder imaginar o que aconteceria a eles - e a nós - poucas horas depois... Uma vida - tão frágil - por um triz, por um fio...
E John, o homem, o mito, ficou ali, estranhamente, curiosamente, tragicamente, docemente, menino-feto no útero do mundo, uma foto. Ficou na retícula da fotógrafa, guerreira, emancipada, mulher, homossexual, no fundo de seu olho e dos olhos de todos nós. A imagem de um homem, uma imagem de homem, um certo homem, um dado homem. Dado a uma história atípica e atraente, visada. Visionária? Um homem que canta a mulher, que fica nu com sua mulher. Só isso mesmo: um homem nu e sua mulher. Nada mais que isso. Pra quê?
As mulheres sofrem, as crianças sofrem, e sofrem também os homens. E muito. É só ver um filme épico daqueles das grandes conquistas de grandes desbravadores, homens fortes e destemidos. Já viu O Senhor dos Anéis? Ufa, quem é que aguenta milênios e milênios de confrontos viris e violentos, covardes e brutos diluídos na memória do corpo e das culturas? Os homens, coitados. Mas eles não dizem isso. Nunca. Nunca? Quem sabe?
Os americanos, espetacularizantes que são, de vez em quando dão mostras de quão assombroso pode ser ser homem na sociedade atual. Eles, que em pleno século 21, continuam cultuando conflitos sem sentido, de vez em quando exibem-se para a humanidade com porções generosas de descrença na condição de ser homem. Ser homem pra quê? Pra um país que não sabe como recebê-los quando voltam mortos, desacreditados, desvalidos? E quando não voltam, detonados nos campos de batalha? Os filmes do cinemão têm contado muitas histórias mais ou menos assim. E de vez em quando - vemos no noticiário - um surta, vai ali na lanchonete, mata um punhado de seus concidadãos e adentra a eternidade descrente do poder superior do homem.
Por essas e por outras, por causa de britânicos, de americanos, de goiano em vôo suicida-infanticida, por causa de ter que dizer sim, quando não dá a mínima, de ter que invadir... países, mulheres, inocências, por tanta coisa que eu poderia dizer, mas que nem vale a pena dizer, sobretudo por isso, porque sou eu que digo. Eu, que sou mulher...
Será que essa peninha que sinto por eles não é aquela velha e conhecida, sempre chata, síndrome da mulher-mãe-bondosa-e-piedosa-haja-o-que-houver? Pode ser, deve ser. Quem sabe? E que diferença faz?
Homens são viris, poderosos, gulosos, são amigos, inteligentes e engraçados... entre eles... principalmente entre eles. Entre eles, além da gula, da amizada, da graça, o que será que se diz? O que será que se pensa? O que sente? Quem é que sabe? Afinal, não tem dia do homem. Tem dia de tudo e de todos, e quem não tem, tá indo atrás pra ter. Só o homem, não. Não tem o Dia do Homem.
Ele não tem dia, ele não tem data. Seu tempo é todo, sua força é toda, sua entrega... Ele não tem dia e como não tem dia, ninguém tira nem um dia para falar do homem, esse pobre coitado, esse esquecido, esse abandonado. Esse, que de tão poderoso, tão dono e senhor de todos os dias, nunca é lembrado, nunca homenageado. Tá ali, na nossa frente, o dia todo, todo dia. E por que não tem dia, ninguém se lembra de suas dores e dissabores. E ele nem deve falar de seus amores...
Ele não tem dia, ele não tem data. Se tivesse um dia - basta um dia - nesse dia, se poderia falar do ser homem. Mas se não tem dia, não tem hora, nem tem data, esse homem nunca vai ser comentado. Coitado, nunca falado, lembrado, noticiado, pautado, investigado, pesquisado. Revirado, negado, afirmado, reafirmado, renegado, ele fica do jeito que está, imenso, absoluto, senhor de todos os dias mas sem dia nenhum.
E é por isso que digo: como é bom ter um dia, um dia da mulher. Da mulher, d...

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Dia destes fui outra vez acometida pela idéia da escutatória. Eu pensava sobre isso - sobre a necessidade de escutar mais que falar - há algum tempo, há muito tempo. Eu me indagava porque para nos mostrarmos vivos e felizes e realizados temos que falar, falar, falar? Por que não podemos ficar em silêncio na presença uns dos outros sempre que quisermos, sempre que precisarmos? Por que as conexões entre a gente tem que ser pela fala, ou pelo gesto, pelo som, até pelo ruído? Por que nossas conexões não podem ser também pelo silêncio? Ou ao menos pela escuta?
Pensava eu mais ou menos assim, quando conheci um texto do Rubem Alves, um texto de interessantes idéias e relatos com curioso nome: A Escutatória. Ali, ele fala de suas sensações para com a escuta, retomando coisas parecidas com aquelas de que eu falei no começo deste texto, e fala também de outros povos, outros autores, outras experiências - inclusive vividas por ele - que falam disso: da necessidade de aquietar as próprias falas interiores, abrindo assim espaço para o silencio e também para a fala do outro.
Nesse ponto, o texto de Rubem Alves se torna ainda mais interessante, exatamente por causa dessa portinhola que ele nos abre, que é poder pensar no silêncio como uma oportunidade para ouvir em profundidade e extensão. Ouvir bem porque se está vazio. Vazio de idéias, vazio de palavras, vazio de sua filosofia, vazio de si.
Esse tipo de pensamento de vez em quando vai e vem em mim. E um dia destes, quando ele veio dar em mim outra vez, veio acompanhado da hipótese de não escrever coisa alguma por um tempo. Não escrever nem em blog, nem em cadernos, nem em coisa alguma. Assim foi que fiquei outro longo período sem escrever por aqui e por ali. Isto é... mais ou menos sem escrever... Porque a escritura mais difícil de conter - a escrita das idéias no pensamento - essa eu não soube mesmo, nem sei, como domar, como dominar. E esquecer.
Por isso, resolvi voltar à minha oratória (ou seria falatório?) e escrever estas linhas, sabendo, admitindo que não posso ou não sei ou não quero esquecer essas idéias, essa possibilidade de dizer ainda uma coisa, falar e falar, dizer dessa vã filosofia que eu sou. Quero que essas palavras possam ser um pouco lidas, um pouco contidas, um pouco esquecidas e, de alguma maneira, um pouco aproximadas das sensações de Alves, de Caeiro, das mulheres, das mulheres nordestinas, de Lichtenberg, de Mendes, de Jovelino, dos índios, de pianistas, de Fernando Pessoa, Mallarmé, Debussy, de tantos que de dentro ou de fora do texto de Rubem e de dentro ou de fora deste meu texto queiram pensar no silêncio e também na escuta, enquanto a esquecem, enquanto nem se dão conta de que isso existe, enquanto falam-escrevem sem parar sobre os seus temas de vida.
Oh, terrível contrasenso! Como esperar escutar mais e melhor, sabendo que em mim as palavras são tantas e tão frequentes e tão eloquentes que precisam vir a ser, vir a estar escritas? Falo de mim, mas poderia falar de toda a humanidade. Quem, em sã consciência, quer um pouco calar e escutar? Quem, nesses tempos de marketing pessoal?
Talvez uma solução universal, uma data no calendário, um dia santo, um dia sagrado: o dia da escutatória! Um dia de feriado, como o Carnaval, sendo o seu contrário, o seu contrário tão somente no que o carnaval tem de sonoro. Um dia de extrema alegria também, a alegria de ouvir e, mais profundamente, de escutar. De estar com outros, coloridos, por que não? Felizes, alegres, escutantes. Um outro calendário para o século 21, quem sabe até para o terceiro milênio. Um calendário que contivesse num sentido mais - digamos - oculto a pretensão de nos permitir esquecer de nós mesmos por alguns instantes, por um dia. Um dia no calendário dos povos em que mostrar-se mais e melhor e mais articulado que o outro pudesse ser esquecido, não por auto-flagelo, nem por indulgência, mas sim por clareza. A clareza de só escutar e, nesse instante, saber e apreender o sabido, o que revelou-se durante a mudez dos povos, no dia do novo feriado da humanidade.
Nesse dia de total silêncio (total tanto quanto possível), ficaríamos ali, assim, esquecidos. Esquecidos deste Dia Destes, esquecidos de Rubem Alves, esquecidos de toda palavra, de toda conversa, sabendo que, quando chegasse o novo dia, o dia seguinte após o Feriado da Escutatória, teríamos muito o que falar, falar como nunca. Afinal, teríamos ouvido tanto do silêncio mais que profundo, que estaríamos aptos a falar sobre muitas coisas, sobre as coisas todas do Universo - mesmo que sem proferir palavra alguma.
Ah, tolice, devaneios. Vamos voltar. Voltar à coisa simples. À palavra. Às palavras neste blog. Vamos à fala, à oratória, à falatória. E quem sabe por esse caminho, chegar à escutatoria, se necessário for...
Vou tentar escrever muito nesse blog, que nem sei se é lido ou esquecido ou falado. Ou escutado. Vou escrever, para ver se assim esvazio as coisas escritas e faladas e conversadas no meu pensamento. E assim me esvaziando e me desfazendo disso e daquilo, seguir ouvindo ainda mais atentamente. Até o esquecimento.
Deixa ver o que o burburinho do meu pensamento tem para nos oferecer para um próximo post... Fala, pensamento, fala!
 
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