terça-feira, 30 de setembro de 2008

Dia destes me vi diante de um grande dilema:

O que seria de mim sem um automóvel?
O que seria de mim sem estradas, sem ruas, sem avenidas?

O assombroso dilema acometeu-me quando eu burilava meu pensamento mais uma vez sobre o caos no trânsito. Como boa parte dos cidadãos do mundo que vivem em centros urbanos, sei que estamos próximos de algo aparentemente terrível e incontornável no que diz respeito a nossa relação com essa máquina tão querida, o automóvel. Parece que estamos, como acreditam alguns, a um passo de um colapso no trânsito.
Mas apesar disso, apesar de saber isso, apesar de buscar desenvolver certa consciência sobre isso, sobre a inviabilidade desse modo coletivo de vida, eu devo assumir: amo carros, amo estradas, amo dirigir um veículo. Moto, carro, tanto faz; tudo é envolvente ao sabor do vento correndo sobre rodas numa estrada. Amo caminhos, caminhos feitos de asfalto, asfalto liso, deslizante. E sobre esse asfalto, eu, você, todo mundo. Nós, que talvez até já nos cruzamos num desses caminhos, mas sequer nos percebemos, que dirá nos olhar, que dirá nos reconhecer. Nós que não nos vimos porque num veículo na estrada que diferença faz quem segue junto ao longo do caminho? Os carros são encantadores.
Nos caminhos das cidades, nos caminhos cheios de gente correndo, só correndo, poucos se olham, quase ninguém se vê, principalmente quem dirige. E esse é o fascínio maior de um carro, um fascínio sobre quem dirige, o motorista, o piloto, o comandante solitário desta fantástica nau motorizada, metálica, sobre rodas. Ao volante, os olhos encontram outras coisas para o olhar.
O carro é o símbolo de uma era, a era das metrópoles, da industrialização e crescimento descontrolado (eu disse crescimento?!). Era do consumismo como meta de vida. Sabemos que esse modelo dá sinais de cansaço, de falência. Pelo menos esse é um sinal que se pode perceber quando os congestionamentos viraram uma praga na vida urbana. O transporte, que na origem serviria para acelerar o deslocamento humano, aos poucos vai se transformando num monstro gordo, pesado e arrastado. As vias são poucas e também não se pode ocupar todo o planeta com asfalto, não é verdade? Nem com carros.
Poxa, mas justo agora, que comprar carro ficou tão mais fácil que décadas atrás. Ah, isso não é justo. Justo agora que tem até Ferrari desenvolvida para mulheres! O slogan poderia ser assim: “Você ainda vai dirigir uma”. E todas nós poderíamos mesmo dirigir uma, pelo menos em test drive. Hahaha. Que legal, hein? E o que falar dos super baratinhos da Índia. Também quero dirigir um desses.
E aí vem mais dilema: se todo mundo tiver um carro, como vai ficar esse planeta? E ai vêm outras questões: Por que um pode ter carro e outro não? Por que uma pode ter uma Ferrari femina e outra Ferrari nenhuma? Mas...
Ah, quem se importa com isso? Quem se importa com isso quando tem na mão um carro e à frente uma estrada? Deixa que morra essa era, quem se importa? Mas enquanto ela vive, a gente segue em frente, easy rider...
Bem, não tão easy, nem tão rider, é bem verdade. O trânsito se torna mais lento, difícil e pesado a cada dia. Estressante, consome uma fatia reluzente de nossas vidas. Por certo que algum estatístico americano ou inglês já teve ter calculado quantos anos deixamos de viver se durante cinco dias na semana, mensalmente, ao longo de 11 meses ficamos uma, duas, três, quatro ou mais horas no trânsito, indo e vindo do trabalho e demais compromissos da vida social contemporânea. Ah, e quem se importa? Estatística é só isso mesmo, estatística, uma contagem. Porque estar ao volante de um carro, mesmo nos congestionamentos, é um valor precioso para este tempo, esta era. Quem se importa?
Bem, eu me importo, juro que me importo, sim. Mas, ai, admito: o que seria de mim sem um carro, uma estrada, um caminho? Um carro e uma estrada para percorrer, easy. Deixa chegar o colapso – que palavra, hein! Deixa que chegue e aí... aí a gente vê o que faz. Afinal, pra que se importar? É tão bom dirigir, dirigir um automóvel, essa máquina bacana, esse pedaço de sonho da humanidade. Se não dirigirmos agora nossos automóveis, faremos o que com nosso sonho do andante motorizado? Um novo sonho para o lugar deste, claro. Mas que sonho?
Ah, quer saber, que me importa? Vou dar uma volta, vou dirigir pra desligar desse assunto. Vou pegar uma estrada, vou andar easy, no meu carro, minha moto, meu ônibus, meu caminhão. Vou deslizar sobre o asfalto, observando, contemplando. Vou pegar uma estrada. Tomara não encontrar engarrafamento no caminho...

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Dia destes eu estava pensando: sobre o que falar? Parece que todo escritor, mais cedo ou mais tarde, irá falar sobre o sobre o que falar. Nem sempre por falta de idéias; às vezes, bem ao contrário: profusão, pregnancy de vida, de idéias, de pessoas, lugares, sensações, possibilidades de vida e de mundo.
Mas... ok... não gostaria mesmo de falar sobre o falar, ainda que concorde com meu velho amigo, Bertold Brecht: "o mostrar tem que ser mostrado". O que eu gostaria agora é que uma dessas idéias, uma dessas partículas de pensamento, ao menos uma, se aquietasse no tempo, condensasse e me desse de bom grado uma idéia... inteira, pura, cristalina... como água. Uma idéia pela qual eu pudesse dizer tanta coisa, eu pudesse sentir tanta coisa e me comunicar.
É, mas a idéia não vem... Que tal uma oração? Uma forcinha lá do alto sempre ajuda.
Oh, meu São Platão, protetor do mundo das idéias, concede-me a graça de uma idéia, eu que sei e sinto e vivo conectada ao plano das idéias. Fazei que eu seja antena veículo canal para deixar fluir alguma idéia, uma muito boa idéia que venha daí. Que a tua graça de uma boa idéia ilumine a mim e a um bom círculo em minha volta. Conceda-me, meu São Platão, padrinho e protetor, segundo a tua vontade e de acordo ao meu merecimento, em nome de nosso senhor Jesus Cristinho, amém!
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Dizem que quando pedimos uma graça, uma força, uma luz às divindades, devemos pedir e simplesmente esperar. Então, vamos esperar...
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É, tá difícil... Veio alguma coisa, um lampejo. outro, sei lá o que era. Mas idéia, idéia mesmo, não veio nenhuma, não tô vendo nenhuma. Também... tá chovendo tanto hoje! Olho para a janela e na noite escura chuva chuva chuva... E depois de uma seca doida destas que deu aqui no Planalto, uma seca doida que deixou meio mundo tonto, zonzo, com sono, pra que escrever, não é?
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hum... vamos só ouvir a chuva...
a chuva molhando...
ô, barulhinho bom...
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Ei... Taí uma boa idéia! Ah, obrigada, meu santinho São Platão. Em nome da graça por vós a mim concedida vou pedir para lerem meu blog uns três amigos. Faço isso como testemunho de minha eterna gratidão e reconhecimento à sua força protetora aos necessitados de idéias, amém.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Dia destes li estarrecida uma manchete sobre nudistas em Nova York aborrecidos por preconceito e perseguição de outros membros da sociedade. Estranho mesmo que em pleno terceiro milênio, época de gente linda bombada e de robôs, do homem maquínico e do fim do humano como cria divina, nessa época auge do homem sobre-humano, nosso corpo, simples corpo, modesto corpo, é algo que ainda não suportamos ver. Por quanto tempo ainda essa vergonha?
O corpo é esquisito para a maioria: magro, gordo, alto, baixo, esguio, flácido, tanto faz, todo mundo quer o corpo para escondê-lo nas roupas. Todo mundo quer achar sua identidade e deixá-la explícita na roupa que veste, vista bem ou vista mal. Todo mundo, eu disse?! Não, todo mundo, não. Uns quase não vestem, ou melhor, vestem o que resta da sociedade de consumo. Então, vestem o que vem até eles, uma coisa quase sem opção. Outros vestem até bem, mas vestem o que ganham, o que herdam. Então, vestem o que outros querem que vistam, e ficam bem assim vestidos; às vezes, nem tão bem.
Agora, há aqueles que simplesmente não vestem, como os índios. Aliás, até índio hoje se veste, até eles encobrem-se de vergonha. Que droga essa vergonha; xô, vergonha. Deixa meu corpo ser ele mesmo do jeito que ele é. Xô, vergonha, deixa que apareçam os corpos que quiserem aparecer. Deixa que o povo viva pelado, cercado de verde.
Pelado? Fala sério. Pelado não é bonito. Bonito é vestido, pois é ali que a pessoa é. Sem roupa, vergonha. Com roupa, dignidade. A roupa é o símbolo do suor, do trabalho, da propina, da trapaça, da surdina. A roupa é humanidade. O corpo... o que é mesmo?!
O corpo é só o cabide. De fato, o cabide parece mais altivo que o corpo, pois guarda sempre a mesma roupa (claro, até que a mesma seja substituída por outra), enquanto o corpo bota qualquer uma, todo dia outra.
Mas, venhamos e convenhamos, somos pessoas do terceiro milênio, cabeça aberta, sociedades democráticas, liberdade de expressão como um direito básico de ser. Estar pelado é expressar-se também, pode também. Veja só nós aqui, nesse país belíssimo, abençoado por Deus: por que a gente não pode ir trabalhar nu? Qual o problema? Um calorão danado e a gente vestido... Tá bem, talvez não seja muito confortável – a gente se desacostumou, né – ficar peladão em situações de trabalho. Imagine que engraçado: numa reunião executiva, de um lado o chefe balofo, de outro a colega gostosona. Ou contrário, por que não? A colega balofa e o chefe – ui – um gostosaço!
É, parece que não dá mais né. Ficar pelado, nem pensar. Mas, pera aí? Será que nem em campos de nudismo?
Essa é uma idéia que precisamos cultivar: liberdade para o corpo! Hum, deixemos vir as palavras de ordem: Liberdade aos nudistas. Pelado também é gente. Abaixo a opressão dos modelitos sobre os corpitos. Eu me amo, eu me amo, não posso mais viver sem mim... pelado. Os tempos parecem inspirar para a aceitação das diferenças. Estar pelado não é pior nem melhor, é só diferente. Então, vamos olhar a gente simples que quer ficar pelada. Ou só podemos espiar o corpo alheio se for em magazines especializadas? Espiar mesmo, olhar mesmo. Ou não olhar, se acostumar e deixar pra lá. Não se espantar com essa coisa tão banal e banalizada que é o corpo da gente.
Se pode botar e tirar silicone, botar botox, tirar pele e pelanca, botar cabelo, tirar cabelo, botar peito, tirar bunda, escurecer o cabelo, clarear o cabelo, lavar o rosto, a mão, o pé, calçar sapato, tirar meia, enfeitar, perfumar, lambrecar, malhar, relaxar, se tudo pode no corpo, com o corpo, por que só pelado é que não pode não? Pelado, sim. Ou, pelado também.
Não precisa ficar pelado quem só sabe estar vestido. Mas não precisa estranhar por ver pelado alguém que, de vez em quando, não quer estar vestido. Seja em Nova York ou em Ipanema, o corpo merece ser descoberto, precisa ser descoberto. Xô, vergonha, sai e deixa eu ver, deixa eu reconhecer, deixa eu me lembrar do corpo da gente, purinho, nuzinho, perfeitinho.
Dia destes eu parei para pensar no meu pai. Pensar prolongadamente, esvaziadamente, porque ele não está mais aqui. Há poucos dias ele se foi, morreu. Mas curiosamente parece que faz muito, muito, muito tempo. Já tive que me despedir de muitos outros entes queridos nesta vida, só que a força da partida de alguém assim único e tão especial, como um pai, parece que revira um pouco a gente.
De fato, não fiquei triste com a morte de meu pai. Senti saudade com carinho por algo que ele um dia foi para mim, sua atenção paterna, um não saber o que falar às vezes, um adoecer se adoecia uma filha... Chorei a saudade, a partida mesmo deste mundo. Mas não fiquei triste, porque é preciso saber alegrar-se e agradar-se diante de uma boa morte.
Sim, uma boa morte – se a morte faz parte da vida e se vale a pena viver, então morrer vale a pena, se a gente teve o tempo para viver... Acho que meu pai, afinal, teve o tempo para viver.
Desde que nascemos, sabemos que a morte nos aguarda em algum lugar do futuro. É lá, no futuro distante e intangível, que reside nossa perspectiva de morte. Bom, talvez não seja assim para aqueles cujas mortes são anunciadas. Mas para o comum do mortal, mesmo sabendo que a morte virá, certa e inevitável, quando ela se apresenta há sempre um certo sentido de estranheza. Por que será?
Quando meu pai morreu, eu quis muito poder ficar só e triste por algum tempo. Mas esse momento nunca foi possível. E isso pareceu-me tão estranho... Alguém morre e logo todos estão providenciando isto, aquilo e mais aquilo outro. Muitos telefonemas, e-mails, visitas, mais providências. E o morto esperando que venham velá-lo... Quando, afinal, chega o velório, muita despedida, muitas palavras de conforto, de acalanto. Novos amigos, velhos amigos, renovados amigos, desconhecidos amigos, todos vêm acalentar os vivos. E, afinal, poucos velam o morto. Poucos lhe dedicam as últimas orações. Poucos processam a passagem para a outra vida.
“Por que falar de morte quando morre alguém? Que coisa boba! Morreu, acabou.”, dirão alguns. Talvez seja assim mesmo. Morreu, acabou. Mas talvez não seja assim mesmo; talvez seja de outro modo, um modo invisível, embora perceptível para alguns.
Ao morrer o meu pai, acho que o que eu mais queria saber é se meu pai tinha ido feliz. Como todos nós, mais ou menos, ele sofreu nesta vida. Sofreu sofrimentos sofridos e sofrimentos sofredores também. Eu achava que ele merecia superar aquela coisa toda que muito o fizera tanto sofrer. Mas quem é que pode saber uma coisa dessa, né? Se alguém que morreu ficou feliz depois da morte? Qua qua qua qua... é coisa engraçada essa idéia... é engraçada. Bem, seja como for pensei muito nestas coisas de morte, de hoje, de agora, de futuro, de ontem, de nunca mais. Pensei muito sobre estas coisas por estes dias. Afinal, quem morreu foi o meu pai.
Mas, deixa, vamos em frente, porque ainda tem muita vida aqui nos esperando, nos envolvendo, nos encantando. Ah, como é bom viver. Viver totalmente, viver até o último dia, até o seu último dia, esteja ele onde estiver, este nosso último dia, incerto, inimaginável, imprevisível. Invisível, embora...
 
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