sábado, 16 de agosto de 2008

Dia destes... eu me senti como quem estivesse assim, parada no tempo. Às vezes, persistir no tempo aqui na Terra parece um não sair do lugar, parece com endurecer-se, parece com perguntar: para que o tempo?
A existência neste lugar urbano, elétrico, fulgurante, cheio de atrito, é por vezes pura perda de tempo. Sair de casa e ir ter no trânsito, nas reuniões, nas transmissões digitais, plurais, hipermidiáticas... Para que tanto movimento? Em me pergunto, enquanto me entrego a esse curioso sentido de parar assim... no tempo.
Neste mundo urbano, elétrico, insaciável, o lugar do ser é o mundano. Mas, parada, estática, me ilumino com a idéia – seria recordação? – de que o lugar do ser pode ser o sagrado. Neste mundo elétrico, temerário, veloz, algumas palavras passam pouco por nossas bocas. Sagrado... Sagrado, uma delas.
Acho que ando deprimida pela urbanidade. Não quero trânsito e quero caminho. Quero caminho e quero paradas, paradas para contemplar o caminho e fazer algo de valia com quem no caminho. Pensamento errante, pouco urbano, quer enciclopédias, quer erudição, quer educação. Para educar quem? Quem para que lugar? O lugar do mundo? O lugar do sagrado?
Poder ser em liberdade deverá poder ser em plenitude. Me agrada muito em minhas leituras idéias como as de Edgar Morin, quando nos liberta do só ser sapiens, para poder ser tudo o mais, ludens, prosaicus, economicus, demens. Ao ler Morin, minha mente inquieta, cansada de rondar por aí, pensou assim: eis aí o meu lugar no mundo, eis aí meu lugar sagrado, o lugar do ser complexus!
Essas idéias morinianas como que me libertaram para sempre. Eu já não tenho espaço só no mundo mundano da auto-afirmação, da competição como marco de vida, da velocidade, da velocidade, da velocidade. Na época do incansável homo sapiens, faber, economicus, o trabalho transformou-se em um desenfrear-se coletivo, um fazer contínuo, incessante, cheio de quase fazer muitas coisas, de fazê-las em demasia, muitas vezes coisas feitas de nada.
Ah, esse estado de depressão que me acomete. Esse estar parado querendo estar ainda mais estático.
Algumas palavras me trazem de volta ao mundo, e com palavras assim, quando volto, parece que volto cada vez menos mundo. Idéias como as de Morin causam em mim forte inspiração, porque permitem, afinal, poder me ver em minha complexidade e mais do que me ver, saber-me assim e poder viver assim. Irromper para o mundo como homo complexus.
E que pessoa é essa?
Ai, ai, ai, a velocidade do mundo já acelera-me nos pés. A cabeça quer voar, parada. O corpo quer parar, enquanto voa no universo. Mas o mundo quer que se cale a mente, quer que se entregue o corpo. Quero não sentir-me como robô, entrando mecanicamente num carro, andando mecanicamente por uma via, estacionando mecanicamente no mesmo estacionamento, realizando mecanicamente a mesma tarefa, escrevendo mecanicamente o mesmo texto. E quero um mundo mas autêntico...
Pensar com os pensamentos de outra pessoa é pensar como se alguém pensasse como você, é pensar como quem pensa quando está em oração: sabemos que nossas palavras serão compreendidas e sabemos que nossas palavras não são só nossas palavras, pois que são também de outros.
Se não posso estar parada na eternidade, também não estarei correndo, correndo, correndo. Chega dos limites do sapiens-faber-economicus. Eu quero ser complexa sem qualquer complexidade. Eu quero menos, bem menos, muito menos. Ai, eu quero uma oração. Ai, meu pai eterno, me envia uma oração e, conforme o teu desejo, me faça aquilo que for do meu mérito para o momento: dá-me abrigo e pousada, dá-me companheiros, dá-nos estrada. Dá-me parar, dá-me seguir, dá-nos palavra, uma palavra, tua palavra, uma oração...

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Dia destes estava eu no hospital. Estávamos ali eu e meu marido, intercaladamente, nosso filho pequeno. Ali, naquele momento eterno e provisório, a vida passava. A vida de muitos. Parecia até guerra... Mas era doença, só doença. Bom, muitas vezes, muita doença. E de vez em quando alguma morte.
A criançada ficava ali, esperando... Esperando a hora do aparelho voltar consertado, esperando o dia da visita do especialista, esperando o instrumento para operação, esperando o implante, esperando a anestesia, esperando o remédio, esperando a hora da operação, esperando alguma atenção. E o tempo por ali, passando. As histórias eram muitas; mal sabíamos os nomes uns dos outros. Às vezes, ríamos juntos, às vezes, sofríamos calados. Um dia, um vibrava do teu lado. Era uma mãe, era um pai levando o filho pra casa. Que alegria era aquele dia! Ficávamos sempre feliz quando alguém, afinal, recebia alta. E, enquanto isso, esperávamos. E na sua ala, com velhas gravuras de personagens de desenho animado grudadas na parede, as crianças passavam por aquela experiência. Cada uma, a seu modo. E cada uma por um tempo.
De noite, era um tormento. Aquele tempo parecia que não passava... Por que à noite as dores são mais doídas? Por que a tristeza da madrugada é tão devastadora? Tinha noite que ali era uma gemedeira, um xororô, uma agonia. Tinha noite que o sono ficava suspenso sobre cada um de nós... Como um amigo solidário, não nos abandonava. Ao contrário, mantinha-se em vigília conosco até altas horas da madrugada, esperando um momento onde as coisas quase todas se aquietassem e pudéssemos, então, dormir. Cada um de nós e o seu sono, juntinhos, sem ninguém para acordar o nosso sono. Pelo menos, por uns instantes.
Numa daquelas noites assim assanhadas, onde tudo se mexe e remexe, o trabalho dos plantonistas parecia não ter fim. Era tanto movimento, muitos chegavam, poucos saíam, muitos sofriam, poucos repousavam. Que noite, que horror. E as luzes? Ai, as luzes, que quase não se apagam ali... Numa noite dessas, iluminada e sem fim, o sono só aceitou acasalar-se comigo quando a escuridão, afinal, irrompeu. Escuridão? Eu disse escuridão? Não, não era nenhuma escuridão. Era uma penumbra, só uma penumbra. Mas trazia tanto conforto... Tamanho foi o conforto naquele momento, que dormi profundamente, tão profundamente, que quase não percebi, imersa em minha minha quimera de penumbra e conforto, que o movimento não cessara naquele noite incomum. O corre-corre tinha tomado conta dos plantonistas outra vez. Aquela noite era uma noite voraz. E a luz – ai, aquela luz – iluminava, espantava a noite triste e sombria outra vez.
As crianças daquela ala tinham todas alguma gravidade em seus casos. Umas mais, outras menos, foram ficando ali aqueles dias e logo descobriram que o que valia a pena mesmo era brincar. De carrinho, de desenho, de gibi. Sim, de bola, claro; claro que tinha até bola; imagina, um lugar (horrível, um hospital) cheio de crianças... Claro que tinha bola! Todas tinham mesmo que esperar; então, brincavam enquanto isso. Todas, menos uma.
Ela chegou muito sofrida. Foi um acidente de trânsito. Ela de bicicleta; o outro moço de carro. Foi um pancadão. Ela machucou muito e foi recebendo tratamento. Teve um dia que foi melhorando. Muito sedada, não podia descer para brincar com as outras crianças. Mas parecia que ela estava se dando conta de que, talvez daqui a pouco, pudesse brincar. Mas isso foi só um “talvez” que eu é que pensava, pois não foi assim. Aquela noite de tanto remelexo, a noite que tanto doente e machucado estava trazendo para o hospital, resolveu ainda por cima levar a menininha, a menininha de cabelinho cheio de mexas. As luzes se acenderam, os plantonistas correram, todo o mundo ali se acendeu, calado, acabrunhado, vendo, só vendo. Enquanto, eu e meu sono nos confortávamos ainda um pouco mais.
Afinal saciada, aquela noite tumultuada, agitada e iluminada se foi. O dia veio, levando também meu sono, que se desfez e se perdeu no burburinho daqueles que, despertos, já falavam do ocorrido.
Ao despertar, enfim, vi caminhantes cambaleantes, voltando para seus leitos, depois de verem partir a menininha. Eu ainda não sabia, mas logo veio uma das mães me por a par. Então, eu vi a cena toda, então, eu entendi por que tanta agitação naquela noite, toda espetacular, uma noite que não queria acabar.
Despertei, afinal. Vi todas as mães da ala das crianças, silenciosas, ao lado de seus filhos. Caladas, quase doces, quase sinistras, quase tristes, quase confortadas. Olhar fixo, tão distante, tão distante...
Uma última conversa entre as mães eu ainda partilhei. Mas ali já não era aquela noite, era já um outro dia. Com o raiar do dia veio a dispersão. Todos voltaram pros seus filhos. Depois, quietude... depois, silêncio... uma oração... outra oração... E nada mais.

sábado, 2 de agosto de 2008

Dia destes eu estava bem ansiosa. Estava numa lan e tentava por tudo conexão, mas ela não vinha. Eu havia reservado uma hora de navegação na lan porque em casa estávamos há dias com problema na internet e é claro que eu não queria encontrar intempéries em minha viagem. Aliás, isso sequer tinha passado por minha cabeça. Mas a conexão não vinha. Como aquilo me inquietava e me angustiava. Eu quase me impacientava, mas logo lembrava que seria inútil. Eu queria conexão, mas ela não vinha. Ah, e ter que enfrentar aquela calmaria...
Naquele dia, minha necessidade era ver páginas de um curso, uma formação lato sensu em modo virtual, em que eu estava interessada. Tinha documentos para baixar, preencher, reenviar. Como a conexão não vinha mesmo [a cada instante eu checava], resolvi me acalmar. Então, o que fazer se a conexão não vinha, se estava lenta? Escrever, decidi. Então, é isso que farei enquanto espero conexão. Vou escrever. Vamos lá!
Eu estava na Casa de Ana. É uma lojinha deliciosa. Temos ali tudo de papelaria, temos computadores e um pouco de guloseimas. Bem legal para quem o maravilhoso mundo dos contatos virtuais está bloqueado em casa! Quando cheguei a esse ponto dos escritos, percebi que, naquele momento, estávamos por volta da décima oitava hora do dia. Lembrei-me que era hora de uma Ave Maria – e o morro inteiro, no fim do dia, reza uma prece: “Ave Maria” – e resolvi orar. Resolvi rezar um Pai Nosso e dez Ave Maria.
Assim, desconectada e religada, tentei esquecer o tempo. Tentei só me lembrar de quando eu era menina, nas ruas de subúrbios do Rio de Janeiro, quando naquela hora do dia ouvíamos uma oração. Era a Ave-Maria. muita gente aumentava o som do rádio, mas pouca gente fazia barulho. Era um momento de sagrado em nossas vidas banais daqueles dias, hoje tão distantes. Nessa justa hora ali, na lan de Ana, enquanto me acometia essa contrição, essas orações, o galo cantou na redondeza. E eu orei outra vez. E aos poucos me acalmei.
Naquele dia, não consegui mesmo navegar. Nem em casa, nem na rua. Só pude escrever essas linhas. Tudo graças ao imponderável...
Agrada-me, de alguma maneira, saber que o imponderável se sobrepõe à minha mera existência, minhas tomadas de decisões, minhas ações, minha vontade individual. O imponderável é revelador, mostra caminhos inesperados. Caminhos ainda não percorridos, não caminhados, não navegados. Navegar é preciso e se não for pelos mares da internet, que seja pelo mar de idéias! Pensava eu estas coisas e as escrevia, quando...
O galo cantou de novo. É tempo de fechar este texto, pensei. Pensei ainda: puxa, não fiz nada do que queria fazer na Casa de Ana, não consegui navegar. E pensei mais. Eu pensei: e agora, o que eu faço com esse texto?
E aí o imponderável, afinal, se revelou e mostrou um caminho. E ai resolvi criar este blog, só para falar dessas coisas mesmo, essas coisas que vêm assim, do nada e preenchem o que antes estava vazio. Ai, espero voltar. Eu volto sim. Dias destes...
 
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