Dia destes eu tentava recordar do meu envolvimento com blog. Como foi que tudo se deu? Onde foi mesmo que começou esse interesse? Quando foi que isso me acometeu? Ah, acho que já me lembro.
Corriam os primeiros anos do terceiro milênio e o mundo começava a trabalhar de maneira mais intensa e rotineira com tecnologias na educação. Começava uma significativa mudança no mundo escolar. Não só pela tecnologia; não, não. Mas também por alguns importantes valores educacionais assim reconhecidos por muitos professores, alunos e comunidades de estudiosos daqueles dias. A autonomia de publicação era um desses valores.
Naqueles dias, todo mundo buscava aprender de tudo um pouco e de cada pequena porção extrair ainda um pouco mais de conhecimento e compartilhar o conhecimento acumulado, trazendo dessa partilha um pouco mais de renovado conhecimento para prosseguir compartilhando. Os caminhos eram muitos, mas em geral estava todo mundo conhecendo sobre síncrono e assíncrono, virtual, digital, real, on line, off line, interface e outros que tais. Todo mundo, claro, força de expressão. Mas muita, muita gente, em todo o mundo, no mundo todo.
Agora, por que usar essas imagens com os verbos expressos no tempo passado se, a rigor, esse tempo ainda está aqui, ainda é o presente? Estamos todos ainda na fase revolucionária desse fenômeno mutacional!
Bem, os verbos expressos no tempo passado vêm para enfatizar a ligeireza dessa mudança. Num sentido geral, ainda estamos aprendendo essa nova linguagem, hipermidiática; mas no curto espaço de tempo de uns cerca de 15 anos passados para cá, muita coisa já veio, já foi. Algumas foram e sumiram mesmo. Outras vieram, mudaram e ficaram e continuam mudando. E outras surgiram, e outras estão ainda por vir.
Tudo isso e mais um pouco veio bater nas salas de aula, aula que pode ser presencial ou virtual. Ou ambas. Com a internet as opções didáticas se proliferaram. Fórum, chat, lista de discussão, blog.
Hum... blog... O que é isso mesmo?
Então, inspirada em saber para ensinar, fui buscar saber pra que servia e como funcionava o tal do blog. Eu lia um bocado nessa época e no setor em que atuava naqueles dias, uma das ferramentas que mais se pesquisava era o fórum, que de fato é excelente para a construção de diálogos e reflexões. Apesar disso, o blog exercia uma especial atração sobre mim; eu não sabia ainda como, mas eu sabia que estava diante de uma interessante e muito nova opção comunicacional, uma opção que, a um só tempo, poderia nos possibilitar autonomia e coletividade. Uau!!!
Eu me indagava sobre essas possibilidades, organizando alguns registros sobre blog, inclusive a descoberta de cursos em nível de pós-graduação. Quando li isso, não sei bem porquê, tive certeza de que deveria estudar sobre blog. Então, eu comecei.
Foi por essa época que recebi convite para lecionar a disciplina Comunicação Digital na Universidade, no curso de Comunicação Social. Assim que vi a ementa, vi o curso inteiro. Bem entendido: inteiro para aquele momento. E para aquele momento e para os anos que se seguiram, eu sabia que ia usar blog e sabia para quê e sabia como. Eu sabia que ali estaria uma oportunidade muito adequada para fazerem confluir ideais profissionais de comunicador com ideais educacionais, tudo sob o princípio da autonomia.
Como eu precisasse aprender e ensinar sobre blog, mas ainda não dispunha de bom cabedal histórico e contextual, convidei para uma palestra em minha turma Rosana Pavarino, já blogueira naqueles dias e também professora na universidade. Rosana nos ensinou muitas coisas naquele dia. E disse algo muito especial e que me chamou particular atenção. Ela disse sobre o desconforto de estar em exibição, de tornar-se um ente público, cuja privacidade tornava-se de súbito algo de posse coletiva. E ela falou de como estamos despreparados para isso. Aquilo de fato me chamou atenção; mas, por alguma razão, achei que fosse exagero. Logo descobri que ela, blogueira, estava cheia de razão, pois sabia do que falava, falava de blog. Logo descobri que o que Rosana Pavarino, blogueira, nos revelava era de fato novo, estranho, profundo.
Construir o primeiro blog – no caso, este Dia Destes – foi uma gestação longa e dolorosa, pois tinha muito a ver com aquela estranha sensação que tive quando ouvi as palavras de Rosana: a exposição pública é dolorosa.
Mas eu tinha também outras dúvidas, mais ou menos técnicas e nem por isso menos estéticas. Uma delas quanto a colocar ou não comentários, “interagir” – ô, palavra chata – ou não com leitores; moderar ou não os comentários; cadastrar ou não interlocutores. Puxa, publicar é ter que tomar decisões e tomar decisões e responder por elas é da ordem da autonomia. Bem, as possibilidades são inúmeras. Aqui, no Dia Destes, decidi meramente deixar que os comentários fossem livres, sem eu ter que responder cada qual potualmente, o que considero em geral o pior tipo de interatividade. Mas não vou explicar esse motivo hoje, pois quero me deter a outros aspectos. Quero ainda falar dos comentários.
Para alguns pouco conhecedores do fenômeno blog, só seria possível falar em blog se houver um sistema de comentários disponibilizado para os internautas; sem isso, no blog, sentenciam. Acontece que esse demanda e solução só veio a se manifestar mais tarde, quando os servidores de blog já eram muito comuns. Os comentários são apenas mais uma face da tão comentada interatividade. Alguns são mais ortodoxos, acreditam que o sistema de comentários tem que ser ofertado e o “dono” do blog tem que responder todos os comentários postados. Aff...
De fato, tendo a concordar com o Kotscho, que, ao lançar o seu Balaio, disse que se dispensava o dever e o direito de responder os comentários. Ele não queria ser a voz principal e indispensável dos debates que, por ventura, se desenrolassem naquele ciberporto. A mesma intenção foi a que tive no sistema comentário deste Dia Destes. O que poderá ser diferente, quem sabe, nalgum outro blog que eu venha a criar.
A essa altura, talvez você me pergunte: mas por que esse tema? Faltou assunto? Afinal, é muito comum confundir auto-referência com vazio discursivo. Mas em minha defesa, eu asseguro: falo de blog nesta época porque coisas muito legais estão acontecendo no mundo e uma das coisas que está possibilitando essas coisas muito legais de acontecerem é o blog. Uma dica, o blog Generation Y.
O Generation Y é de autoria de Yoani Sanchez, uma cubana que ganhou o concurso Bobs (Best of Blogs) de melhor blog do ano, promovido por uma revista alemã. Essa referência eu descobri no blog do Luís Nassif, que por sua vez descobriu no blog do Jorge Pontual. Que legal isso, não é? Um blog que leva a outro que leva a outro que leva a outro, sem ninguém preocupado com a tola idéia do furo de notícia. Pelo contrário, todo mundo querendo falar de algo que possa ser legal. Como esta hermana cubana, segundo a Times, uma das pessoas mais influentes em 2008 – isso também li no blog do Nassif. Uma mulher que nos fala da Ilha, aquela linda e gloriosa Ilha que ainda não tem certeza se pode deixar sua voz ecoar pelo mundo. Claro que pode. Fala Yoani, fala Cuba. Queremos ouvir vocês.
Ah, sim, mas por que é mesmo que falo de blog no blog?
Acho que foi por causa do Nassif, da Yoani, ou talvez por causa da letra Y do meu nome, também grego na origem. Sei lá porque foi... Só sei que, se não fosse pelo blog, acho que nem eu, nem você teríamos lidos essas linhas. Nem agora, nem nunca, nem em lugar nenhum.
Ah, sim: reparou os links no texto? Isso acho muito peculiar de um sistema blog, por falar em blog. Então, a partir de hoje, modifico a estética do Dia Destes, ancorando aqui referências possíveis das minhas idéias. E reparou ali do lado, os links de blogs de amigos, chegados e afins, o bross blogs? Pois é, outros lugares, outros blogueiros, para mim, para você, para o Nassif, a Yoani, para Cuba, para os blogueiros do mundo inteiro. E para quem lê blogs também.
Blog, uma idéia bem legal!
domingo, 28 de dezembro de 2008
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
Dia destes eu pensava: por que estamos em geral tão hostis uns com os outros? Você abre jornal [entenda-se, conecta a rede] e aí...
atriz apanhou de ator
ator bateu em camareira
torcedor agrediu treinador
homem arremessa mulher e filho
caramba, que merda se tornou o noticiário...
li que numa das ótimas estatísticas americanas eles descobriram que nos EUA a criminalidade havia decaído nos últimos anos. Apesar disso, esse tema foi o que mais cresceu na mídia no mesmo período.
Por que esse tema cresceu num certo espaço de exposição de pedaços da realidade, a tal da mídia? Se fôssemos dizer em linguagem jornalística, poderíamos perguntar: por que essa pauta?
Até o Kotscho falou outro dia de certa celebridade e o maremoto de exposição a que estava submetida e frequentemente numa sintonia de agressividade, essa a tônica romântica fatal dos tempos de hoje.
Bem, de tempos em tempos passo tempos sem perder meu tempo, precioso tempo, diante do tolo tempo dos noticiários. Temos que ver, claro. E temos que não ver também. Não ver e buscar ver outras visões.
De tempos em tempos penso nisso e não quero ver as tenebrosas faces da humanidade. Quero me entregar aos pensamentos iluminados e floridos, faces também da humanidade. Quero entregar-me à calmaria e a não competição. Quero e vou no ritmo das estrelas, num céu onde quase já não são mais vistas, tamanha a intensidade luminosa que nós, humanos, produzimos na Terra, esse tão lindo e simpático astro universal, esse planeta.
De tempos em tempos gostaria de apenas permanecer no Tempo, deus supremo do infinito. Naquela divindade, o Tempo. Sagrado Tempo.
Mas que nada. Sai da minha frente que eu quero passar. Porque este samba está animado e o que eu quero, meu senhor, minha senhora, é só sambar.
É tempo de pensar que temos na veia muita raça, devemos saber ser diferente, porque a gente tem muita raça, raça de toda cor. Até da raça negra. Por isso, o que eu quero é só sambar...
Só sambar,
sambar só.
Sambar numa nota só.
Samba no pé.
Sambar no pé
Sem dar nó no pé.
Porque hoje é dia
de pensar negro
Hoje é dia de pensar negro
Hoje é dia de amar negro
Hoje é dia de consciência
De consciência de negro
Lembrar desse cheiro bom na nossa terra
Essa malícia pura dengosa safada gostosa
Malemolência pura
Tudo ciência, pura ciência
De quem soube amenizar
a dor
nas costas rubras em cascatas
E ficar aqui
E ficar negro aqui
Num Brasil tão neguinho assim
Tão lindinho assim
Epa, peraí, deixa eu ver na tv
o que é que se vai dizer
deste dia
Mais um
De consciência
Negra
atriz apanhou de ator
ator bateu em camareira
torcedor agrediu treinador
homem arremessa mulher e filho
caramba, que merda se tornou o noticiário...
li que numa das ótimas estatísticas americanas eles descobriram que nos EUA a criminalidade havia decaído nos últimos anos. Apesar disso, esse tema foi o que mais cresceu na mídia no mesmo período.
Por que esse tema cresceu num certo espaço de exposição de pedaços da realidade, a tal da mídia? Se fôssemos dizer em linguagem jornalística, poderíamos perguntar: por que essa pauta?
Até o Kotscho falou outro dia de certa celebridade e o maremoto de exposição a que estava submetida e frequentemente numa sintonia de agressividade, essa a tônica romântica fatal dos tempos de hoje.
Bem, de tempos em tempos passo tempos sem perder meu tempo, precioso tempo, diante do tolo tempo dos noticiários. Temos que ver, claro. E temos que não ver também. Não ver e buscar ver outras visões.
De tempos em tempos penso nisso e não quero ver as tenebrosas faces da humanidade. Quero me entregar aos pensamentos iluminados e floridos, faces também da humanidade. Quero entregar-me à calmaria e a não competição. Quero e vou no ritmo das estrelas, num céu onde quase já não são mais vistas, tamanha a intensidade luminosa que nós, humanos, produzimos na Terra, esse tão lindo e simpático astro universal, esse planeta.
De tempos em tempos gostaria de apenas permanecer no Tempo, deus supremo do infinito. Naquela divindade, o Tempo. Sagrado Tempo.
Mas que nada. Sai da minha frente que eu quero passar. Porque este samba está animado e o que eu quero, meu senhor, minha senhora, é só sambar.
É tempo de pensar que temos na veia muita raça, devemos saber ser diferente, porque a gente tem muita raça, raça de toda cor. Até da raça negra. Por isso, o que eu quero é só sambar...
Só sambar,
sambar só.
Sambar numa nota só.
Samba no pé.
Sambar no pé
Sem dar nó no pé.
Porque hoje é dia
de pensar negro
Hoje é dia de pensar negro
Hoje é dia de amar negro
Hoje é dia de consciência
De consciência de negro
Lembrar desse cheiro bom na nossa terra
Essa malícia pura dengosa safada gostosa
Malemolência pura
Tudo ciência, pura ciência
De quem soube amenizar
a dor
nas costas rubras em cascatas
E ficar aqui
E ficar negro aqui
Num Brasil tão neguinho assim
Tão lindinho assim
Epa, peraí, deixa eu ver na tv
o que é que se vai dizer
deste dia
Mais um
De consciência
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sábado, 15 de novembro de 2008
Dia destes percebi petrificada que uma certa pedra que enfeita meu lar, uma ágata azul, outra coisa não era senão o olho de algum ser extinto no tempo, o olho de algum animal que viveu algum dia por aqui, no planeta Terra. Que visão encantadora! Devo mesmo admitir que foi um dos momentos mais profundos e intensos de minha vida nestes últimos tempos. Então, deixei-me embalar por esta percepção, acreditando, sim, profundamente, que aquilo que eu olhava e que parecia olhar para mim fora um dia um ser vivo.
De verdade, não sei se aquilo foi mesmo um olho algum dia, mas que parecia, parecia. Na verdade, vi como se fosse um olho de pássaro. Ao pensar em pássaro, pensei que pudesse ter sido o olho de um dinossauro voador. Assim parecia, desses modos, essas possibilidades.
O que me encantava mesmo era simplesmente pensar, acreditar: isso que me olha e que eu vejo é uma pedra, que foi um dia um olho num animal. Um animal somente possível aqui na Terra, paraíso perdido no espaço...
Sob o encantamento destes pensamentos senti-me, por diluído instante, arremessada ao tempo daquele animal. E naquele momento, com nos filmes em que passado e presente vão e vem e se misturam, tive a sensação de que aquele bicho estava me vendo. De verdade. Naquele momento, exato momento, que pareceu um longo tempo... A profundidade daquela pupila como uma passagem pelo tempo, uma abertura para ver as coisas da Terra como outras coisas. E se encantar.
Mas aí logo estava eu aqui de volta, convencida pela razão a pensar noutras coisas, noutras pessoas. Ocorreu-me ter lido em algum lugar alguém dizer mais ou menos assim: que as rochas são seres que sonham o mundo. E aí, já convencida de que a pedra podia estar viva, sonhando o mundo, pensei: ah, eu outra coisa não sou que o sonho da pedra, que por sua vez foi olho de pássaro noutro tempo. Ou de dinossauro.
Esses momentos na vida (não sei se acontece com todo mundo) em que temos a sensação de ter mudado de dimensão por instantes, são momentos muito curiosos. Eles são uma mistura de extrema velocidade e absoluta letargia. Quando se é tragado pelo negro, a sensação é de que nada mais será visto. Mas de repente, parece que grandes porções de luz surgem, tanta, muito clara, que chega dói nos olhos. Mas aí também parece que não é nos olhos que dói, pois não é mesmo o olho que vê, mas a alma. Nesses momentos, quando temos a sensação de ter mudado de dimensão, sentimos lampejos de alma, arrebatamentos de espírito. Coisa rara muito rara para a sociedade contemporânea, pesada, metálica, ruidosa, acelerada, descontente, confusa.
Esses momentos noutras dimensões (não sei se isso acomete todo mundo) são, para mim, momentos gostosinhos de viver. Pena que são frutos do acaso. Pelo menos minha razão fica ali tentando perceber quais condições estavam dadas para essas transições tempo-espaço terem se manifestado. Mas ela ainda não sabe. Pelo que sei, a Ciência já sabe alguma coisa sobre isso, embora não consiga explicar. Deve ser mesmo difícil de explicar, porque a razão tem que buscar uma fórmula que comporte o espírito. Qual será essa fórmula?
Ah, uma pedra... azul... linda... Cristalina nuns pontos, opaca noutros. Feita de claros e escuros. Tons compactos, tons rajados. Uma pedra, simples pedra, só isso mesmo. Ali, enfeitando uma vida humana, mas provocando-lhe também. O que será que sabe a pedra do que faz a mim? Não deve saber nada; a pedra deve ser mesmo como disse aquele alguém: ela só sonha o mundo. E no sonho dela ela nem me sonha... nem me vê... não sabe nem vai saber que estou ali matutando tanta idéia, que eu estive ali quando e onde aquela nem era pedra. Ela sonha o mundo dela. E, vai ver, no mundo dela sonhado não estou eu nem está você. E eu e você, aqui, agora, nos perdendo em pensamentos por causa dela, aquela pedra, que acho, já nem sei, que fora um olho.
Mas ainda bem que tem a pedra. Sonhando ou acordada, ou morta ou viva, seja como for. Ela fica ali, embelezando, provocando, dando idéia.
E como me divertiram as idéias que brotaram daquele encontro atemporal entre eu e a pedra olho de lindo azul! Pareceu um sonho, vislumbre do espírito...
De verdade, não sei se aquilo foi mesmo um olho algum dia, mas que parecia, parecia. Na verdade, vi como se fosse um olho de pássaro. Ao pensar em pássaro, pensei que pudesse ter sido o olho de um dinossauro voador. Assim parecia, desses modos, essas possibilidades.
O que me encantava mesmo era simplesmente pensar, acreditar: isso que me olha e que eu vejo é uma pedra, que foi um dia um olho num animal. Um animal somente possível aqui na Terra, paraíso perdido no espaço...
Sob o encantamento destes pensamentos senti-me, por diluído instante, arremessada ao tempo daquele animal. E naquele momento, com nos filmes em que passado e presente vão e vem e se misturam, tive a sensação de que aquele bicho estava me vendo. De verdade. Naquele momento, exato momento, que pareceu um longo tempo... A profundidade daquela pupila como uma passagem pelo tempo, uma abertura para ver as coisas da Terra como outras coisas. E se encantar.
Mas aí logo estava eu aqui de volta, convencida pela razão a pensar noutras coisas, noutras pessoas. Ocorreu-me ter lido em algum lugar alguém dizer mais ou menos assim: que as rochas são seres que sonham o mundo. E aí, já convencida de que a pedra podia estar viva, sonhando o mundo, pensei: ah, eu outra coisa não sou que o sonho da pedra, que por sua vez foi olho de pássaro noutro tempo. Ou de dinossauro.
Esses momentos na vida (não sei se acontece com todo mundo) em que temos a sensação de ter mudado de dimensão por instantes, são momentos muito curiosos. Eles são uma mistura de extrema velocidade e absoluta letargia. Quando se é tragado pelo negro, a sensação é de que nada mais será visto. Mas de repente, parece que grandes porções de luz surgem, tanta, muito clara, que chega dói nos olhos. Mas aí também parece que não é nos olhos que dói, pois não é mesmo o olho que vê, mas a alma. Nesses momentos, quando temos a sensação de ter mudado de dimensão, sentimos lampejos de alma, arrebatamentos de espírito. Coisa rara muito rara para a sociedade contemporânea, pesada, metálica, ruidosa, acelerada, descontente, confusa.
Esses momentos noutras dimensões (não sei se isso acomete todo mundo) são, para mim, momentos gostosinhos de viver. Pena que são frutos do acaso. Pelo menos minha razão fica ali tentando perceber quais condições estavam dadas para essas transições tempo-espaço terem se manifestado. Mas ela ainda não sabe. Pelo que sei, a Ciência já sabe alguma coisa sobre isso, embora não consiga explicar. Deve ser mesmo difícil de explicar, porque a razão tem que buscar uma fórmula que comporte o espírito. Qual será essa fórmula?
Ah, uma pedra... azul... linda... Cristalina nuns pontos, opaca noutros. Feita de claros e escuros. Tons compactos, tons rajados. Uma pedra, simples pedra, só isso mesmo. Ali, enfeitando uma vida humana, mas provocando-lhe também. O que será que sabe a pedra do que faz a mim? Não deve saber nada; a pedra deve ser mesmo como disse aquele alguém: ela só sonha o mundo. E no sonho dela ela nem me sonha... nem me vê... não sabe nem vai saber que estou ali matutando tanta idéia, que eu estive ali quando e onde aquela nem era pedra. Ela sonha o mundo dela. E, vai ver, no mundo dela sonhado não estou eu nem está você. E eu e você, aqui, agora, nos perdendo em pensamentos por causa dela, aquela pedra, que acho, já nem sei, que fora um olho.
Mas ainda bem que tem a pedra. Sonhando ou acordada, ou morta ou viva, seja como for. Ela fica ali, embelezando, provocando, dando idéia.
E como me divertiram as idéias que brotaram daquele encontro atemporal entre eu e a pedra olho de lindo azul! Pareceu um sonho, vislumbre do espírito...
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quarta-feira, 5 de novembro de 2008
Dia destes vibrei, como muitos, a escolha do primeiro negro para ser presidente de uma grande nação do ocidente. Que coisa tola, vibrar porque uma certa cor e textura e cheiro de pele reveste o todo ser de uma pessoa! De fato, neste caso específico, essa vibração é mesmo uma tolice, mas não uma tolice qualquer. De fato, neste caso específico, não é qualquer negro. Falo, claro, de Barack Obama.
Esse negro não é qualquer negro porque é um negro dos Estados Unidos da América, a toda poderosa e branca e impiedosa e imperialista nação líder do mundo no século 20. Mas Barack Obama é um fenômeno do século 21, o século em que outras nações e outros povos e outras faces aparecem para nos dizer Hello!
Que sorte e satisfação para nós, brasileiros, ter um presidente do sertão, um presidente da roça, um presidente da metrópole, um presidente metalúrgico, um presidente ativista, um presidente secundarista. Sorte das grandes, pois restitue a toda uma nação, mesmo que parte dela ainda não perceba, a dignidade de ser brasileiro. Pois o brasileiro na média é um pouco tudo que o presidente Luís Inácio Lula da Silva é. Uma cara nova dizendo Hello! para o mundo. É claro que ele tem muitas limitações, como os têm os presidentes indígenas, as presidentes mulheres e, agora, o presidente negro dos Estados Unidos da América deverá em alguma dimensão manifestar.
O que esses novos rostos dizendo Hello! para o mundo têm além de suas possíveis limitações, como quaisquer outros dirigentes de qualquer outro tempo? Será que essas faces novas não são apenas outros modos de ser a mesma coisa? Barack Obama, por exemplo, é um negro, um afro-americano ou um americano? Qual Obama vai falar mais alto a cada ato do presidente dos Estados Unidos da América? Ele será um presidente com reminiscências da Mãe África ou será um presidente que pensa como McCain, “Não vamos nos render”?
Por alguma razão que não consigo compreender ainda, sinto coisas novas no ar da humanidade. Mas tento não me deixar entorpecer até o esquecimento com essa onda de novos rostos entre os principais dirigentes e lideranças do mundo. Um presidente norte-americano será sempre e antes de tudo um presidente norte-americano típico: poderoso, branco, impiedoso, imperialista, seja homem ou mulher, branco ou negro ou índio ou pardo, seja o que for. Ou não?
O século 20 assistiu a coisas espantosas, coisas que continuam espantando a nossa imaginação ainda hoje pela televisão, pelos jornais, pela internet. Mas esse aparato comunicativo também tem trazido à tona novas idéias, outras possibilidades. A campanha de Obama floresceu na internet, grande parte da nova geração de eleitores dos poderosos Estados Unidos da América são de jovens de origem negra e latina. Talvez a novidade sentida e não compreendida por mim tenha um pouco a ver com isso. Os Lula, Barack, Hugo, Evo e outros não são a grande novidade. A novidade é quem não se vê. Por exemplo, esses novos eleitores americanos.
Talvez a novidade seja a voz que se faz ouvir fora da imprensa. Que fantásticas as redes virtuais que debatem e argumentam sobre seus possíveis presidentes, sobre propostas, sobre visão de futuro para um país e para o mundo! Que legal saber que a mensagem das grandes redes de notícia já não são o único parâmetro de informação que se têm. Isso talvez seja algo de novo no ar da humanidade, não sei. Pode ser que amanhã ou depois a gente veja Obama fazendo umas coisas de arrepiar, no melhor estilo yankee. Pode ser, afinal ele é americano, ele é yankee. Por isso, tento me manter sóbria em meio a onda da novidade que embriaga corações por todo o canto por causa de Obama.
O que sei é que realmente estou vibrando pela simples razão de Barack Obama ser negro, neguinho, com família na África, povo simples, de pé no chão, como sempre cantando e dançando para marcar algo grande, algo pelo que vale a pena eles vibrarem também.
Amanhã, depois, quem sabe como será? Mas nestes tempos nascentes do século 21 ver isso acontecer é muito bom, é bom pelos povos negros, que tanto sofreram nos últimos séculos, é bom para os povos indígenas, que não sofreram menos, ao ponto quase de extinção, é bom para mulheres, que ainda amargam também muitas dores, muito sofrimento.
Por isso tudo que para nós, brasileiro, ainda que a gente não se dê conta totalmente disso, é uma alegria ter o Lula presidente. Porque com pessoas assim a gente se lembra que tem valor, que nem tudo que é bom nasceu na Europa ou nos Estados Unidos, e mesmo que tenha nascido lá, não é superior aos demais. O mundo tá abarrotado de turbulências e contradições e não basta ser negro ou americano, mulher ou nordestino, isso ou aquilo para aquietar um pouco o coração dessa recém-nascida humanidade. Humanidade? Será?
Ah, deixa isso para quem estiver aí amanhã ou depois de amanhã. Por hoje, vamos ficar na vibração de perceber que alguma coisa aconteceu e que está tudo assim tão diferente. Mesmo que igual.
Esse negro não é qualquer negro porque é um negro dos Estados Unidos da América, a toda poderosa e branca e impiedosa e imperialista nação líder do mundo no século 20. Mas Barack Obama é um fenômeno do século 21, o século em que outras nações e outros povos e outras faces aparecem para nos dizer Hello!
Que sorte e satisfação para nós, brasileiros, ter um presidente do sertão, um presidente da roça, um presidente da metrópole, um presidente metalúrgico, um presidente ativista, um presidente secundarista. Sorte das grandes, pois restitue a toda uma nação, mesmo que parte dela ainda não perceba, a dignidade de ser brasileiro. Pois o brasileiro na média é um pouco tudo que o presidente Luís Inácio Lula da Silva é. Uma cara nova dizendo Hello! para o mundo. É claro que ele tem muitas limitações, como os têm os presidentes indígenas, as presidentes mulheres e, agora, o presidente negro dos Estados Unidos da América deverá em alguma dimensão manifestar.
O que esses novos rostos dizendo Hello! para o mundo têm além de suas possíveis limitações, como quaisquer outros dirigentes de qualquer outro tempo? Será que essas faces novas não são apenas outros modos de ser a mesma coisa? Barack Obama, por exemplo, é um negro, um afro-americano ou um americano? Qual Obama vai falar mais alto a cada ato do presidente dos Estados Unidos da América? Ele será um presidente com reminiscências da Mãe África ou será um presidente que pensa como McCain, “Não vamos nos render”?
Por alguma razão que não consigo compreender ainda, sinto coisas novas no ar da humanidade. Mas tento não me deixar entorpecer até o esquecimento com essa onda de novos rostos entre os principais dirigentes e lideranças do mundo. Um presidente norte-americano será sempre e antes de tudo um presidente norte-americano típico: poderoso, branco, impiedoso, imperialista, seja homem ou mulher, branco ou negro ou índio ou pardo, seja o que for. Ou não?
O século 20 assistiu a coisas espantosas, coisas que continuam espantando a nossa imaginação ainda hoje pela televisão, pelos jornais, pela internet. Mas esse aparato comunicativo também tem trazido à tona novas idéias, outras possibilidades. A campanha de Obama floresceu na internet, grande parte da nova geração de eleitores dos poderosos Estados Unidos da América são de jovens de origem negra e latina. Talvez a novidade sentida e não compreendida por mim tenha um pouco a ver com isso. Os Lula, Barack, Hugo, Evo e outros não são a grande novidade. A novidade é quem não se vê. Por exemplo, esses novos eleitores americanos.
Talvez a novidade seja a voz que se faz ouvir fora da imprensa. Que fantásticas as redes virtuais que debatem e argumentam sobre seus possíveis presidentes, sobre propostas, sobre visão de futuro para um país e para o mundo! Que legal saber que a mensagem das grandes redes de notícia já não são o único parâmetro de informação que se têm. Isso talvez seja algo de novo no ar da humanidade, não sei. Pode ser que amanhã ou depois a gente veja Obama fazendo umas coisas de arrepiar, no melhor estilo yankee. Pode ser, afinal ele é americano, ele é yankee. Por isso, tento me manter sóbria em meio a onda da novidade que embriaga corações por todo o canto por causa de Obama.
O que sei é que realmente estou vibrando pela simples razão de Barack Obama ser negro, neguinho, com família na África, povo simples, de pé no chão, como sempre cantando e dançando para marcar algo grande, algo pelo que vale a pena eles vibrarem também.
Amanhã, depois, quem sabe como será? Mas nestes tempos nascentes do século 21 ver isso acontecer é muito bom, é bom pelos povos negros, que tanto sofreram nos últimos séculos, é bom para os povos indígenas, que não sofreram menos, ao ponto quase de extinção, é bom para mulheres, que ainda amargam também muitas dores, muito sofrimento.
Por isso tudo que para nós, brasileiro, ainda que a gente não se dê conta totalmente disso, é uma alegria ter o Lula presidente. Porque com pessoas assim a gente se lembra que tem valor, que nem tudo que é bom nasceu na Europa ou nos Estados Unidos, e mesmo que tenha nascido lá, não é superior aos demais. O mundo tá abarrotado de turbulências e contradições e não basta ser negro ou americano, mulher ou nordestino, isso ou aquilo para aquietar um pouco o coração dessa recém-nascida humanidade. Humanidade? Será?
Ah, deixa isso para quem estiver aí amanhã ou depois de amanhã. Por hoje, vamos ficar na vibração de perceber que alguma coisa aconteceu e que está tudo assim tão diferente. Mesmo que igual.
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domingo, 12 de outubro de 2008
Dia destes parei para ouvir mais uma vez Milton Nascimento cantar. Enquanto ele cantava, eu cantarolava com ele. Cantarolei uma coisa, cantarolei outra e de repente deparei-me com essa idéia:
eu
caçador de mim
Ouvindo aquela voz encantadora de Milton e ali assim pensando, súbito a idéia pareceu-me fascinante. Eu, caçador de mim. O que seria isso? Como seria isso?
Somos uma coletividade muito voraz, como caçadores astutos. Em nosso dia a dia, mesmo em epicentros de urbanidade, gostamos de caçar, caçar os outros, caçar oportunidades, caçar uma aparição vultosa, caçar parecer ser alguma coisa. Caçar, ainda entendemos disso. Entendemos de caçar algo que está fora de nós próprios, algo que é diferente de nós. Caçadores de outros. Mas o que seria, então, ser caçador de si mesmo? Eu imaginei assim...
eu, caçador de mim
Eu me caçar
Eu me procurar
Eu me observar
Observar com calma com vagar com redobrada atenção
Resoluta atenção
eu, caçador de mim
Caçador que preciso caçar
E eu sou minha presa
Vou observar-me minha presa
Pobre presa,
Golpeá-la
Dominá-la
Devorá-la
Ela
Eu
Minha presa
Eu,
Caça dor de mim
Eu,
Prende canções em mim
Eu,
Entrega paixões infinitas a mim
eu, caçador de mim
foge das armadilhas
sonha pouco
e sente
eu, caçador de mim
eu
caçador de mim
Ouvindo aquela voz encantadora de Milton e ali assim pensando, súbito a idéia pareceu-me fascinante. Eu, caçador de mim. O que seria isso? Como seria isso?
Somos uma coletividade muito voraz, como caçadores astutos. Em nosso dia a dia, mesmo em epicentros de urbanidade, gostamos de caçar, caçar os outros, caçar oportunidades, caçar uma aparição vultosa, caçar parecer ser alguma coisa. Caçar, ainda entendemos disso. Entendemos de caçar algo que está fora de nós próprios, algo que é diferente de nós. Caçadores de outros. Mas o que seria, então, ser caçador de si mesmo? Eu imaginei assim...
eu, caçador de mim
Eu me caçar
Eu me procurar
Eu me observar
Observar com calma com vagar com redobrada atenção
Resoluta atenção
eu, caçador de mim
Caçador que preciso caçar
E eu sou minha presa
Vou observar-me minha presa
Pobre presa,
Golpeá-la
Dominá-la
Devorá-la
Ela
Eu
Minha presa
Eu,
Caça dor de mim
Eu,
Prende canções em mim
Eu,
Entrega paixões infinitas a mim
eu, caçador de mim
foge das armadilhas
sonha pouco
e sente
eu, caçador de mim
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dia destes 10 - caçador de mim,
Milton Nascimento,
paixões
terça-feira, 7 de outubro de 2008
Dia destes recebi um spam de pessoa mui fidedigna, querida amiga minha. Era um vídeo sobre a obsessão por certo padrão de beleza que "sequer existe", como diz o vídeo. Então pensei: que padrão quero ter? E rápido como o vento, o padrão que me cabe - assim o creio - revelou-se a mim. Quero ser uma vênus!
Sim, uma vênus. Perfeito. Mas qual?
A Vênus de Milos, envolta em mistério ou a Vênus de Boticelli, muito linda muito conhecida muito desejada ou a Vênus que esta inspirou, a Vênus de Apelles. Ou antes ainda a Vênus de Willendorf, que alguns preferem chamar Mulher de Willendorf porque não aceitam a denominação Vênus para uma imagem tão volumosa do ideal de beleza feminina.
Ou outras muitas outras Vênus que podem ser lembradas, embora ao evocar cada uma evoca-se também algo mais. A de Willendorf é assim chamada devido à localidade onde foi encontrada. A de Boticelli porque foi ele quem pintou o quadro O Nascimento de Vênus. Mas seria possível ser apenas uma vênus, uma absoluta vênus, uma meramente vênus? Uma vênus que não fosse nem dali nem de ninguém? Uma vênus em si?
Noutro dia destes eu falava sobre o corpo. E aqui voltam um pouco aquelas questões: como nos livrarmos dos desejos enlouquecedores dos temores das vergonhas e olharmos nosso corpinho com mais aceitação? É só um corpo os bilhões de corpos humanos que existem sobre o planeta. E antes mesmo que a gente tenha noção do nosso corpo, já tem alguém dizendo: você é muito gordo, você é muito magro; você como muito, você nunca come; pra vestir isso tem que estar sarado; por isso, engorde; por isso, emagreça; e essa ruga, que feia, tira!
Em que espelho pode se mirar uma Vênus qualquer para poder ser mesmo uma Vênus? Ou Vênus que é Vênus quase não se olha no espelho pois sabe que é Vênus? Toda linda, toda perfeita, uma deusa, uma Vênus.
Os estatísticos descobriram dia destes o que as mulheres, de um modo geral, sabem desde sempre: boa parte do tempo de nossas preciosas vidas femininas é aplicada diante de um espelho ou próximas a ele, cuidando de nossas belezas, de nossa venusiedade. As mulheres levam muito tempo se arrumando. Também os amantes sabem disso desde sempre, pois é clássica quase tradição a imagem do amante esperando a mulher terminar de se arrumar, sua mulher, sua vênus. Mas agora, graças à estatística. podemos saber quanto tempo é esse. Só que a questão não é essa, quanto tempo, pois as mulheres ainda vão gastar muito tempo com sua vaidade. E os homens também, afinal, começam a investir tempo nesse bom hábito, o de se cuidar e sentir maior bem estar. A questão é como ser uma Vênus perfeita, parecida com as lindas da passarela, da tela? Mas qual linda, se cada uma é de um jeito? E cada jeito mais jeitoso que o outro. Só que uma vênus que é vênus mesmo não vai querer ter isso ou aquilo de ninguém. Vai querer ter o seu, ser o seu. Seria assim ser em si uma Vênus?
Então, deve ser assim ser uma Vênus mera e absoluta: sentir-se bem e agraciada com o próprio corpo, com a própria estampa, seja ela como for gorda magra baixa alta isso e aquilo isso e aquilo. Tanto faz, contanto que a Vênus saiba-se linda e completa e perfeita, porque é uma Vênus. E possa dizer ou pensar ou mostrar ou ... o quanto é bela, o quanto faz-se mais bela a cada dia com o corpo que tem, o corpo perfeito da ponta do fio do cabelo até a ponta do dedo do pé. Toda perfeita, toda Vênus. Uma simples Vênus, mera e absoluta. Uma Vênus do cotidiano. Uma Vênus de si. Só uma Vênus. Uma Vênus só.
Uma Vênus.
Sim, uma vênus. Perfeito. Mas qual?
A Vênus de Milos, envolta em mistério ou a Vênus de Boticelli, muito linda muito conhecida muito desejada ou a Vênus que esta inspirou, a Vênus de Apelles. Ou antes ainda a Vênus de Willendorf, que alguns preferem chamar Mulher de Willendorf porque não aceitam a denominação Vênus para uma imagem tão volumosa do ideal de beleza feminina.
Ou outras muitas outras Vênus que podem ser lembradas, embora ao evocar cada uma evoca-se também algo mais. A de Willendorf é assim chamada devido à localidade onde foi encontrada. A de Boticelli porque foi ele quem pintou o quadro O Nascimento de Vênus. Mas seria possível ser apenas uma vênus, uma absoluta vênus, uma meramente vênus? Uma vênus que não fosse nem dali nem de ninguém? Uma vênus em si?
Noutro dia destes eu falava sobre o corpo. E aqui voltam um pouco aquelas questões: como nos livrarmos dos desejos enlouquecedores dos temores das vergonhas e olharmos nosso corpinho com mais aceitação? É só um corpo os bilhões de corpos humanos que existem sobre o planeta. E antes mesmo que a gente tenha noção do nosso corpo, já tem alguém dizendo: você é muito gordo, você é muito magro; você como muito, você nunca come; pra vestir isso tem que estar sarado; por isso, engorde; por isso, emagreça; e essa ruga, que feia, tira!
Em que espelho pode se mirar uma Vênus qualquer para poder ser mesmo uma Vênus? Ou Vênus que é Vênus quase não se olha no espelho pois sabe que é Vênus? Toda linda, toda perfeita, uma deusa, uma Vênus.
Os estatísticos descobriram dia destes o que as mulheres, de um modo geral, sabem desde sempre: boa parte do tempo de nossas preciosas vidas femininas é aplicada diante de um espelho ou próximas a ele, cuidando de nossas belezas, de nossa venusiedade. As mulheres levam muito tempo se arrumando. Também os amantes sabem disso desde sempre, pois é clássica quase tradição a imagem do amante esperando a mulher terminar de se arrumar, sua mulher, sua vênus. Mas agora, graças à estatística. podemos saber quanto tempo é esse. Só que a questão não é essa, quanto tempo, pois as mulheres ainda vão gastar muito tempo com sua vaidade. E os homens também, afinal, começam a investir tempo nesse bom hábito, o de se cuidar e sentir maior bem estar. A questão é como ser uma Vênus perfeita, parecida com as lindas da passarela, da tela? Mas qual linda, se cada uma é de um jeito? E cada jeito mais jeitoso que o outro. Só que uma vênus que é vênus mesmo não vai querer ter isso ou aquilo de ninguém. Vai querer ter o seu, ser o seu. Seria assim ser em si uma Vênus?
Então, deve ser assim ser uma Vênus mera e absoluta: sentir-se bem e agraciada com o próprio corpo, com a própria estampa, seja ela como for gorda magra baixa alta isso e aquilo isso e aquilo. Tanto faz, contanto que a Vênus saiba-se linda e completa e perfeita, porque é uma Vênus. E possa dizer ou pensar ou mostrar ou ... o quanto é bela, o quanto faz-se mais bela a cada dia com o corpo que tem, o corpo perfeito da ponta do fio do cabelo até a ponta do dedo do pé. Toda perfeita, toda Vênus. Uma simples Vênus, mera e absoluta. Uma Vênus do cotidiano. Uma Vênus de si. Só uma Vênus. Uma Vênus só.
Uma Vênus.
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sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Dia destes eu admirava encantada os volteios de uma fumaça. Assim como o fogo, seu aparentado, a fumaça é sempre uma novidade. E sempre um mistério. O que a contém que nos permite ver aquelas formas sempre mutantes, sempre únicas? O que a libera, permitindo ir aonde quiser?
A beleza da fumaça é um tema que vai e volta na literatura mundial. Literatura artística, literatura médica, literatura jornalística, literatura policial, literatura jurídica, literatura histórica, literatura. As falas da humanidade são muitas sobre a fumaça. E não deve ser à toa, já que boa parte de tudo que há outra coisa não é senão fumaça, expansão de matérias gasosas. O universo, até onde sabemos, é isso, a expansão de uma explosão, isto é, fumaça.
E a fumaça ela pode ser de tantas formas, feita de tantos diferentes elementos. Pode ser tóxica, pode ser enebriante, pode ser bela de se ver, pode ser terrificante, pode ser um susto, pode ser um alento. A fumaça pode ser o quiser.
Em alguns temas contemporâneos, a fumaça é sinal de risco. Durante muitos anos, os grandes e poderosos (idéia estranha, poder) jogaram mega toneladas de fumaça tóxica e nociva sobre populações inteiras, criando monstruosidades e grande sofrimento. O que aconteceu a esses poderosos? Nada exatamente. Ah, sim, talvez alguma multa, talvez algum tipo de retratação, algum tipo de responsabilidade assumida de ir mudando as condições para um estado melhor das coisas, já muito deterioradas, dando um tempo aos senhores da indústria. Quem aqui no Brasil não se lembra da terrível história de Cubatão, uma cidade assombrosa? Pessoas sofrendo muito, filhos nascidos incompletos, imprecisos. Um lugar falido pela ação de industriais, poderosos . E esse poder condenou gerações e gerações a um estado irretratável de ser. Não havia tempo que pudesse lhes ser concedido para irem mudando as coisas, pare voltarem a ser o que nunca haviam sido. A fumaça dali lhes deixara uma condição imutável. Pobres gerações.
A fumaça das queimadas também é assombrosa para todo o planeta. Todos sabem disso mais ou menos. Mas mesmo sabendo bem e sabendo muito, muitos plantadores, poderosos ou nem tanto, ainda preferem atear fogo para limpar o terreno, sabendo que essa limpeza resulte em grande sujeira ambiental. Fumaça terrível, condenando todos os povos e todas as gerações, mais ou menos, a intenso sofrimento, a terrível mal estar. E os poderosos? Bem, os poderosos...
Há também a fumaça das drogas. Lícitas ou ilícitas. Sabe-se que a fumaça do simpático cigarro envenenou gerações e gerações de usuários e isso com o claro conhecimento dos poderosos industriais brancos da indústria tabagista, esclarecidos pelo trabalho científico de pesquisadores acadêmicos. O poder do saber servindo ao poder do não-deixar-saber. Mas desde a primeira mordida na maçã, sabemos que aquilo que está velado, seja mais cedo seja mais tarde, irá se revelar. Os cigarros continuam lícitos, só que agora sabemos quão danosos são. Então, o encantado fumante assume sua porção de responsabilidade sobre se quer fumar, quanto e quando.
Fumar sabendo que pode até morrer é uma decisão, às vezes, estética (ah, os românticos e seus vapores), às vezes, política, às vezes religiosa. Sim, até religiosa, ou espiritual, se preferirem. Drogas vaporosas sagradas, colocando pessoas em contato com o divino, abrindo canais para comunicação com outras dimensões (ah, é, cientistas afinal “descobriram”: existem outras muitas dimensões).
Como é enigmática a fumaça, quanto ainda precisamos que se nos revele sobre seu poder, encantador e intenso. Com que gases e com que vapores podemos conviver? Porque viver sem fumaça parece mesmo humanamente impossível. A fumaça dos automóveis já quase não vemos, o que não significa que não estão ali, dissolvendo a atmosfera. A fumaça dos sprays, das fábricas, a fumaça do peido dos gados. Fumaças invisíveis ao nosso olhar, ao nosso limitado poder de ver, mas fumaça mesmo assim. Gases rodopiando noutros gases, desenhando formas no ar, gerando um outro mundo.
Ah, será muito grave ou nenhum pouco sentar ao redor de uma fogueira com um bom punhado de amigos e ver aquela beleza? E acender um incenso? E se vaporizar com delicioso perfume, quiçá français? E conceder a um noviço sacerdote o êxtase de fumar uma erva sagrada? E um cigarrinho, de palha ou do que quiser, um charuto, um cachimbo até, depois de uma jornada de trabalho? O cachimbo da paz, como se usa dizer. Um cachimbo e a paz. Fumaça e contemplação, fumaça e aceitação, fumaça e comunhão.
Ah, fumaça, para onde quer ainda me levar com meu pensamento? Pára, sossega, deixa estar. Devolve-me a ilusão da clareza, do sólido, do concreto, do que se pode tocar. Me deixa quieta. E, já que vai, aproveita e leva contigo um pouco destes pensamentos e espalha no ar. Preciso desanuviar.
A beleza da fumaça é um tema que vai e volta na literatura mundial. Literatura artística, literatura médica, literatura jornalística, literatura policial, literatura jurídica, literatura histórica, literatura. As falas da humanidade são muitas sobre a fumaça. E não deve ser à toa, já que boa parte de tudo que há outra coisa não é senão fumaça, expansão de matérias gasosas. O universo, até onde sabemos, é isso, a expansão de uma explosão, isto é, fumaça.
E a fumaça ela pode ser de tantas formas, feita de tantos diferentes elementos. Pode ser tóxica, pode ser enebriante, pode ser bela de se ver, pode ser terrificante, pode ser um susto, pode ser um alento. A fumaça pode ser o quiser.
Em alguns temas contemporâneos, a fumaça é sinal de risco. Durante muitos anos, os grandes e poderosos (idéia estranha, poder) jogaram mega toneladas de fumaça tóxica e nociva sobre populações inteiras, criando monstruosidades e grande sofrimento. O que aconteceu a esses poderosos? Nada exatamente. Ah, sim, talvez alguma multa, talvez algum tipo de retratação, algum tipo de responsabilidade assumida de ir mudando as condições para um estado melhor das coisas, já muito deterioradas, dando um tempo aos senhores da indústria. Quem aqui no Brasil não se lembra da terrível história de Cubatão, uma cidade assombrosa? Pessoas sofrendo muito, filhos nascidos incompletos, imprecisos. Um lugar falido pela ação de industriais, poderosos . E esse poder condenou gerações e gerações a um estado irretratável de ser. Não havia tempo que pudesse lhes ser concedido para irem mudando as coisas, pare voltarem a ser o que nunca haviam sido. A fumaça dali lhes deixara uma condição imutável. Pobres gerações.
A fumaça das queimadas também é assombrosa para todo o planeta. Todos sabem disso mais ou menos. Mas mesmo sabendo bem e sabendo muito, muitos plantadores, poderosos ou nem tanto, ainda preferem atear fogo para limpar o terreno, sabendo que essa limpeza resulte em grande sujeira ambiental. Fumaça terrível, condenando todos os povos e todas as gerações, mais ou menos, a intenso sofrimento, a terrível mal estar. E os poderosos? Bem, os poderosos...
Há também a fumaça das drogas. Lícitas ou ilícitas. Sabe-se que a fumaça do simpático cigarro envenenou gerações e gerações de usuários e isso com o claro conhecimento dos poderosos industriais brancos da indústria tabagista, esclarecidos pelo trabalho científico de pesquisadores acadêmicos. O poder do saber servindo ao poder do não-deixar-saber. Mas desde a primeira mordida na maçã, sabemos que aquilo que está velado, seja mais cedo seja mais tarde, irá se revelar. Os cigarros continuam lícitos, só que agora sabemos quão danosos são. Então, o encantado fumante assume sua porção de responsabilidade sobre se quer fumar, quanto e quando.
Fumar sabendo que pode até morrer é uma decisão, às vezes, estética (ah, os românticos e seus vapores), às vezes, política, às vezes religiosa. Sim, até religiosa, ou espiritual, se preferirem. Drogas vaporosas sagradas, colocando pessoas em contato com o divino, abrindo canais para comunicação com outras dimensões (ah, é, cientistas afinal “descobriram”: existem outras muitas dimensões).
Como é enigmática a fumaça, quanto ainda precisamos que se nos revele sobre seu poder, encantador e intenso. Com que gases e com que vapores podemos conviver? Porque viver sem fumaça parece mesmo humanamente impossível. A fumaça dos automóveis já quase não vemos, o que não significa que não estão ali, dissolvendo a atmosfera. A fumaça dos sprays, das fábricas, a fumaça do peido dos gados. Fumaças invisíveis ao nosso olhar, ao nosso limitado poder de ver, mas fumaça mesmo assim. Gases rodopiando noutros gases, desenhando formas no ar, gerando um outro mundo.
Ah, será muito grave ou nenhum pouco sentar ao redor de uma fogueira com um bom punhado de amigos e ver aquela beleza? E acender um incenso? E se vaporizar com delicioso perfume, quiçá français? E conceder a um noviço sacerdote o êxtase de fumar uma erva sagrada? E um cigarrinho, de palha ou do que quiser, um charuto, um cachimbo até, depois de uma jornada de trabalho? O cachimbo da paz, como se usa dizer. Um cachimbo e a paz. Fumaça e contemplação, fumaça e aceitação, fumaça e comunhão.
Ah, fumaça, para onde quer ainda me levar com meu pensamento? Pára, sossega, deixa estar. Devolve-me a ilusão da clareza, do sólido, do concreto, do que se pode tocar. Me deixa quieta. E, já que vai, aproveita e leva contigo um pouco destes pensamentos e espalha no ar. Preciso desanuviar.
terça-feira, 30 de setembro de 2008
Dia destes me vi diante de um grande dilema:
O assombroso dilema acometeu-me quando eu burilava meu pensamento mais uma vez sobre o caos no trânsito. Como boa parte dos cidadãos do mundo que vivem em centros urbanos, sei que estamos próximos de algo aparentemente terrível e incontornável no que diz respeito a nossa relação com essa máquina tão querida, o automóvel. Parece que estamos, como acreditam alguns, a um passo de um colapso no trânsito.
Mas apesar disso, apesar de saber isso, apesar de buscar desenvolver certa consciência sobre isso, sobre a inviabilidade desse modo coletivo de vida, eu devo assumir: amo carros, amo estradas, amo dirigir um veículo. Moto, carro, tanto faz; tudo é envolvente ao sabor do vento correndo sobre rodas numa estrada. Amo caminhos, caminhos feitos de asfalto, asfalto liso, deslizante. E sobre esse asfalto, eu, você, todo mundo. Nós, que talvez até já nos cruzamos num desses caminhos, mas sequer nos percebemos, que dirá nos olhar, que dirá nos reconhecer. Nós que não nos vimos porque num veículo na estrada que diferença faz quem segue junto ao longo do caminho? Os carros são encantadores.
O que seria de mim sem um automóvel?
O que seria de mim sem estradas, sem ruas, sem avenidas?
O assombroso dilema acometeu-me quando eu burilava meu pensamento mais uma vez sobre o caos no trânsito. Como boa parte dos cidadãos do mundo que vivem em centros urbanos, sei que estamos próximos de algo aparentemente terrível e incontornável no que diz respeito a nossa relação com essa máquina tão querida, o automóvel. Parece que estamos, como acreditam alguns, a um passo de um colapso no trânsito.
Mas apesar disso, apesar de saber isso, apesar de buscar desenvolver certa consciência sobre isso, sobre a inviabilidade desse modo coletivo de vida, eu devo assumir: amo carros, amo estradas, amo dirigir um veículo. Moto, carro, tanto faz; tudo é envolvente ao sabor do vento correndo sobre rodas numa estrada. Amo caminhos, caminhos feitos de asfalto, asfalto liso, deslizante. E sobre esse asfalto, eu, você, todo mundo. Nós, que talvez até já nos cruzamos num desses caminhos, mas sequer nos percebemos, que dirá nos olhar, que dirá nos reconhecer. Nós que não nos vimos porque num veículo na estrada que diferença faz quem segue junto ao longo do caminho? Os carros são encantadores.
Nos caminhos das cidades, nos caminhos cheios de gente correndo, só correndo, poucos se olham, quase ninguém se vê, principalmente quem dirige. E esse é o fascínio maior de um carro, um fascínio sobre quem dirige, o motorista, o piloto, o comandante solitário desta fantástica nau motorizada, metálica, sobre rodas. Ao volante, os olhos encontram outras coisas para o olhar.
O carro é o símbolo de uma era, a era das metrópoles, da industrialização e crescimento descontrolado (eu disse crescimento?!). Era do consumismo como meta de vida. Sabemos que esse modelo dá sinais de cansaço, de falência. Pelo menos esse é um sinal que se pode perceber quando os congestionamentos viraram uma praga na vida urbana. O transporte, que na origem serviria para acelerar o deslocamento humano, aos poucos vai se transformando num monstro gordo, pesado e arrastado. As vias são poucas e também não se pode ocupar todo o planeta com asfalto, não é verdade? Nem com carros.
Poxa, mas justo agora, que comprar carro ficou tão mais fácil que décadas atrás. Ah, isso não é justo. Justo agora que tem até Ferrari desenvolvida para mulheres! O slogan poderia ser assim: “Você ainda vai dirigir uma”. E todas nós poderíamos mesmo dirigir uma, pelo menos em test drive. Hahaha. Que legal, hein? E o que falar dos super baratinhos da Índia. Também quero dirigir um desses.
E aí vem mais dilema: se todo mundo tiver um carro, como vai ficar esse planeta? E ai vêm outras questões: Por que um pode ter carro e outro não? Por que uma pode ter uma Ferrari femina e outra Ferrari nenhuma? Mas...
O carro é o símbolo de uma era, a era das metrópoles, da industrialização e crescimento descontrolado (eu disse crescimento?!). Era do consumismo como meta de vida. Sabemos que esse modelo dá sinais de cansaço, de falência. Pelo menos esse é um sinal que se pode perceber quando os congestionamentos viraram uma praga na vida urbana. O transporte, que na origem serviria para acelerar o deslocamento humano, aos poucos vai se transformando num monstro gordo, pesado e arrastado. As vias são poucas e também não se pode ocupar todo o planeta com asfalto, não é verdade? Nem com carros.
Poxa, mas justo agora, que comprar carro ficou tão mais fácil que décadas atrás. Ah, isso não é justo. Justo agora que tem até Ferrari desenvolvida para mulheres! O slogan poderia ser assim: “Você ainda vai dirigir uma”. E todas nós poderíamos mesmo dirigir uma, pelo menos em test drive. Hahaha. Que legal, hein? E o que falar dos super baratinhos da Índia. Também quero dirigir um desses.
E aí vem mais dilema: se todo mundo tiver um carro, como vai ficar esse planeta? E ai vêm outras questões: Por que um pode ter carro e outro não? Por que uma pode ter uma Ferrari femina e outra Ferrari nenhuma? Mas...
Ah, quem se importa com isso? Quem se importa com isso quando tem na mão um carro e à frente uma estrada? Deixa que morra essa era, quem se importa? Mas enquanto ela vive, a gente segue em frente, easy rider...
Bem, não tão easy, nem tão rider, é bem verdade. O trânsito se torna mais lento, difícil e pesado a cada dia. Estressante, consome uma fatia reluzente de nossas vidas. Por certo que algum estatístico americano ou inglês já teve ter calculado quantos anos deixamos de viver se durante cinco dias na semana, mensalmente, ao longo de 11 meses ficamos uma, duas, três, quatro ou mais horas no trânsito, indo e vindo do trabalho e demais compromissos da vida social contemporânea. Ah, e quem se importa? Estatística é só isso mesmo, estatística, uma contagem. Porque estar ao volante de um carro, mesmo nos congestionamentos, é um valor precioso para este tempo, esta era. Quem se importa?
Bem, eu me importo, juro que me importo, sim. Mas, ai, admito: o que seria de mim sem um carro, uma estrada, um caminho? Um carro e uma estrada para percorrer, easy. Deixa chegar o colapso – que palavra, hein! Deixa que chegue e aí... aí a gente vê o que faz. Afinal, pra que se importar? É tão bom dirigir, dirigir um automóvel, essa máquina bacana, esse pedaço de sonho da humanidade. Se não dirigirmos agora nossos automóveis, faremos o que com nosso sonho do andante motorizado? Um novo sonho para o lugar deste, claro. Mas que sonho?
Ah, quer saber, que me importa? Vou dar uma volta, vou dirigir pra desligar desse assunto. Vou pegar uma estrada, vou andar easy, no meu carro, minha moto, meu ônibus, meu caminhão. Vou deslizar sobre o asfalto, observando, contemplando. Vou pegar uma estrada. Tomara não encontrar engarrafamento no caminho...
Bem, não tão easy, nem tão rider, é bem verdade. O trânsito se torna mais lento, difícil e pesado a cada dia. Estressante, consome uma fatia reluzente de nossas vidas. Por certo que algum estatístico americano ou inglês já teve ter calculado quantos anos deixamos de viver se durante cinco dias na semana, mensalmente, ao longo de 11 meses ficamos uma, duas, três, quatro ou mais horas no trânsito, indo e vindo do trabalho e demais compromissos da vida social contemporânea. Ah, e quem se importa? Estatística é só isso mesmo, estatística, uma contagem. Porque estar ao volante de um carro, mesmo nos congestionamentos, é um valor precioso para este tempo, esta era. Quem se importa?
Bem, eu me importo, juro que me importo, sim. Mas, ai, admito: o que seria de mim sem um carro, uma estrada, um caminho? Um carro e uma estrada para percorrer, easy. Deixa chegar o colapso – que palavra, hein! Deixa que chegue e aí... aí a gente vê o que faz. Afinal, pra que se importar? É tão bom dirigir, dirigir um automóvel, essa máquina bacana, esse pedaço de sonho da humanidade. Se não dirigirmos agora nossos automóveis, faremos o que com nosso sonho do andante motorizado? Um novo sonho para o lugar deste, claro. Mas que sonho?
Ah, quer saber, que me importa? Vou dar uma volta, vou dirigir pra desligar desse assunto. Vou pegar uma estrada, vou andar easy, no meu carro, minha moto, meu ônibus, meu caminhão. Vou deslizar sobre o asfalto, observando, contemplando. Vou pegar uma estrada. Tomara não encontrar engarrafamento no caminho...
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
Dia destes eu estava pensando: sobre o que falar? Parece que todo escritor, mais cedo ou mais tarde, irá falar sobre o sobre o que falar. Nem sempre por falta de idéias; às vezes, bem ao contrário: profusão, pregnancy de vida, de idéias, de pessoas, lugares, sensações, possibilidades de vida e de mundo.
Mas... ok... não gostaria mesmo de falar sobre o falar, ainda que concorde com meu velho amigo, Bertold Brecht: "o mostrar tem que ser mostrado". O que eu gostaria agora é que uma dessas idéias, uma dessas partículas de pensamento, ao menos uma, se aquietasse no tempo, condensasse e me desse de bom grado uma idéia... inteira, pura, cristalina... como água. Uma idéia pela qual eu pudesse dizer tanta coisa, eu pudesse sentir tanta coisa e me comunicar.
É, mas a idéia não vem... Que tal uma oração? Uma forcinha lá do alto sempre ajuda.
Oh, meu São Platão, protetor do mundo das idéias, concede-me a graça de uma idéia, eu que sei e sinto e vivo conectada ao plano das idéias. Fazei que eu seja antena veículo canal para deixar fluir alguma idéia, uma muito boa idéia que venha daí. Que a tua graça de uma boa idéia ilumine a mim e a um bom círculo em minha volta. Conceda-me, meu São Platão, padrinho e protetor, segundo a tua vontade e de acordo ao meu merecimento, em nome de nosso senhor Jesus Cristinho, amém!
...
Dizem que quando pedimos uma graça, uma força, uma luz às divindades, devemos pedir e simplesmente esperar. Então, vamos esperar...
...
É, tá difícil... Veio alguma coisa, um lampejo. outro, sei lá o que era. Mas idéia, idéia mesmo, não veio nenhuma, não tô vendo nenhuma. Também... tá chovendo tanto hoje! Olho para a janela e na noite escura chuva chuva chuva... E depois de uma seca doida destas que deu aqui no Planalto, uma seca doida que deixou meio mundo tonto, zonzo, com sono, pra que escrever, não é?
...
...
...
hum... vamos só ouvir a chuva...
a chuva molhando...
ô, barulhinho bom...
...
...
...
Ei... Taí uma boa idéia! Ah, obrigada, meu santinho São Platão. Em nome da graça por vós a mim concedida vou pedir para lerem meu blog uns três amigos. Faço isso como testemunho de minha eterna gratidão e reconhecimento à sua força protetora aos necessitados de idéias, amém.
Mas... ok... não gostaria mesmo de falar sobre o falar, ainda que concorde com meu velho amigo, Bertold Brecht: "o mostrar tem que ser mostrado". O que eu gostaria agora é que uma dessas idéias, uma dessas partículas de pensamento, ao menos uma, se aquietasse no tempo, condensasse e me desse de bom grado uma idéia... inteira, pura, cristalina... como água. Uma idéia pela qual eu pudesse dizer tanta coisa, eu pudesse sentir tanta coisa e me comunicar.
É, mas a idéia não vem... Que tal uma oração? Uma forcinha lá do alto sempre ajuda.
Oh, meu São Platão, protetor do mundo das idéias, concede-me a graça de uma idéia, eu que sei e sinto e vivo conectada ao plano das idéias. Fazei que eu seja antena veículo canal para deixar fluir alguma idéia, uma muito boa idéia que venha daí. Que a tua graça de uma boa idéia ilumine a mim e a um bom círculo em minha volta. Conceda-me, meu São Platão, padrinho e protetor, segundo a tua vontade e de acordo ao meu merecimento, em nome de nosso senhor Jesus Cristinho, amém!
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Dizem que quando pedimos uma graça, uma força, uma luz às divindades, devemos pedir e simplesmente esperar. Então, vamos esperar...
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É, tá difícil... Veio alguma coisa, um lampejo. outro, sei lá o que era. Mas idéia, idéia mesmo, não veio nenhuma, não tô vendo nenhuma. Também... tá chovendo tanto hoje! Olho para a janela e na noite escura chuva chuva chuva... E depois de uma seca doida destas que deu aqui no Planalto, uma seca doida que deixou meio mundo tonto, zonzo, com sono, pra que escrever, não é?
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hum... vamos só ouvir a chuva...
a chuva molhando...
ô, barulhinho bom...
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Ei... Taí uma boa idéia! Ah, obrigada, meu santinho São Platão. Em nome da graça por vós a mim concedida vou pedir para lerem meu blog uns três amigos. Faço isso como testemunho de minha eterna gratidão e reconhecimento à sua força protetora aos necessitados de idéias, amém.
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quarta-feira, 10 de setembro de 2008
Dia destes li estarrecida uma manchete sobre nudistas em Nova York aborrecidos por preconceito e perseguição de outros membros da sociedade. Estranho mesmo que em pleno terceiro milênio, época de gente linda bombada e de robôs, do homem maquínico e do fim do humano como cria divina, nessa época auge do homem sobre-humano, nosso corpo, simples corpo, modesto corpo, é algo que ainda não suportamos ver. Por quanto tempo ainda essa vergonha?
O corpo é esquisito para a maioria: magro, gordo, alto, baixo, esguio, flácido, tanto faz, todo mundo quer o corpo para escondê-lo nas roupas. Todo mundo quer achar sua identidade e deixá-la explícita na roupa que veste, vista bem ou vista mal. Todo mundo, eu disse?! Não, todo mundo, não. Uns quase não vestem, ou melhor, vestem o que resta da sociedade de consumo. Então, vestem o que vem até eles, uma coisa quase sem opção. Outros vestem até bem, mas vestem o que ganham, o que herdam. Então, vestem o que outros querem que vistam, e ficam bem assim vestidos; às vezes, nem tão bem.
Agora, há aqueles que simplesmente não vestem, como os índios. Aliás, até índio hoje se veste, até eles encobrem-se de vergonha. Que droga essa vergonha; xô, vergonha. Deixa meu corpo ser ele mesmo do jeito que ele é. Xô, vergonha, deixa que apareçam os corpos que quiserem aparecer. Deixa que o povo viva pelado, cercado de verde.
Pelado? Fala sério. Pelado não é bonito. Bonito é vestido, pois é ali que a pessoa é. Sem roupa, vergonha. Com roupa, dignidade. A roupa é o símbolo do suor, do trabalho, da propina, da trapaça, da surdina. A roupa é humanidade. O corpo... o que é mesmo?!
O corpo é só o cabide. De fato, o cabide parece mais altivo que o corpo, pois guarda sempre a mesma roupa (claro, até que a mesma seja substituída por outra), enquanto o corpo bota qualquer uma, todo dia outra.
Mas, venhamos e convenhamos, somos pessoas do terceiro milênio, cabeça aberta, sociedades democráticas, liberdade de expressão como um direito básico de ser. Estar pelado é expressar-se também, pode também. Veja só nós aqui, nesse país belíssimo, abençoado por Deus: por que a gente não pode ir trabalhar nu? Qual o problema? Um calorão danado e a gente vestido... Tá bem, talvez não seja muito confortável – a gente se desacostumou, né – ficar peladão em situações de trabalho. Imagine que engraçado: numa reunião executiva, de um lado o chefe balofo, de outro a colega gostosona. Ou contrário, por que não? A colega balofa e o chefe – ui – um gostosaço!
É, parece que não dá mais né. Ficar pelado, nem pensar. Mas, pera aí? Será que nem em campos de nudismo?
Essa é uma idéia que precisamos cultivar: liberdade para o corpo! Hum, deixemos vir as palavras de ordem: Liberdade aos nudistas. Pelado também é gente. Abaixo a opressão dos modelitos sobre os corpitos. Eu me amo, eu me amo, não posso mais viver sem mim... pelado. Os tempos parecem inspirar para a aceitação das diferenças. Estar pelado não é pior nem melhor, é só diferente. Então, vamos olhar a gente simples que quer ficar pelada. Ou só podemos espiar o corpo alheio se for em magazines especializadas? Espiar mesmo, olhar mesmo. Ou não olhar, se acostumar e deixar pra lá. Não se espantar com essa coisa tão banal e banalizada que é o corpo da gente.
Se pode botar e tirar silicone, botar botox, tirar pele e pelanca, botar cabelo, tirar cabelo, botar peito, tirar bunda, escurecer o cabelo, clarear o cabelo, lavar o rosto, a mão, o pé, calçar sapato, tirar meia, enfeitar, perfumar, lambrecar, malhar, relaxar, se tudo pode no corpo, com o corpo, por que só pelado é que não pode não? Pelado, sim. Ou, pelado também.
Não precisa ficar pelado quem só sabe estar vestido. Mas não precisa estranhar por ver pelado alguém que, de vez em quando, não quer estar vestido. Seja em Nova York ou em Ipanema, o corpo merece ser descoberto, precisa ser descoberto. Xô, vergonha, sai e deixa eu ver, deixa eu reconhecer, deixa eu me lembrar do corpo da gente, purinho, nuzinho, perfeitinho.
O corpo é esquisito para a maioria: magro, gordo, alto, baixo, esguio, flácido, tanto faz, todo mundo quer o corpo para escondê-lo nas roupas. Todo mundo quer achar sua identidade e deixá-la explícita na roupa que veste, vista bem ou vista mal. Todo mundo, eu disse?! Não, todo mundo, não. Uns quase não vestem, ou melhor, vestem o que resta da sociedade de consumo. Então, vestem o que vem até eles, uma coisa quase sem opção. Outros vestem até bem, mas vestem o que ganham, o que herdam. Então, vestem o que outros querem que vistam, e ficam bem assim vestidos; às vezes, nem tão bem.
Agora, há aqueles que simplesmente não vestem, como os índios. Aliás, até índio hoje se veste, até eles encobrem-se de vergonha. Que droga essa vergonha; xô, vergonha. Deixa meu corpo ser ele mesmo do jeito que ele é. Xô, vergonha, deixa que apareçam os corpos que quiserem aparecer. Deixa que o povo viva pelado, cercado de verde.
Pelado? Fala sério. Pelado não é bonito. Bonito é vestido, pois é ali que a pessoa é. Sem roupa, vergonha. Com roupa, dignidade. A roupa é o símbolo do suor, do trabalho, da propina, da trapaça, da surdina. A roupa é humanidade. O corpo... o que é mesmo?!
O corpo é só o cabide. De fato, o cabide parece mais altivo que o corpo, pois guarda sempre a mesma roupa (claro, até que a mesma seja substituída por outra), enquanto o corpo bota qualquer uma, todo dia outra.
Mas, venhamos e convenhamos, somos pessoas do terceiro milênio, cabeça aberta, sociedades democráticas, liberdade de expressão como um direito básico de ser. Estar pelado é expressar-se também, pode também. Veja só nós aqui, nesse país belíssimo, abençoado por Deus: por que a gente não pode ir trabalhar nu? Qual o problema? Um calorão danado e a gente vestido... Tá bem, talvez não seja muito confortável – a gente se desacostumou, né – ficar peladão em situações de trabalho. Imagine que engraçado: numa reunião executiva, de um lado o chefe balofo, de outro a colega gostosona. Ou contrário, por que não? A colega balofa e o chefe – ui – um gostosaço!
É, parece que não dá mais né. Ficar pelado, nem pensar. Mas, pera aí? Será que nem em campos de nudismo?
Essa é uma idéia que precisamos cultivar: liberdade para o corpo! Hum, deixemos vir as palavras de ordem: Liberdade aos nudistas. Pelado também é gente. Abaixo a opressão dos modelitos sobre os corpitos. Eu me amo, eu me amo, não posso mais viver sem mim... pelado. Os tempos parecem inspirar para a aceitação das diferenças. Estar pelado não é pior nem melhor, é só diferente. Então, vamos olhar a gente simples que quer ficar pelada. Ou só podemos espiar o corpo alheio se for em magazines especializadas? Espiar mesmo, olhar mesmo. Ou não olhar, se acostumar e deixar pra lá. Não se espantar com essa coisa tão banal e banalizada que é o corpo da gente.
Se pode botar e tirar silicone, botar botox, tirar pele e pelanca, botar cabelo, tirar cabelo, botar peito, tirar bunda, escurecer o cabelo, clarear o cabelo, lavar o rosto, a mão, o pé, calçar sapato, tirar meia, enfeitar, perfumar, lambrecar, malhar, relaxar, se tudo pode no corpo, com o corpo, por que só pelado é que não pode não? Pelado, sim. Ou, pelado também.
Não precisa ficar pelado quem só sabe estar vestido. Mas não precisa estranhar por ver pelado alguém que, de vez em quando, não quer estar vestido. Seja em Nova York ou em Ipanema, o corpo merece ser descoberto, precisa ser descoberto. Xô, vergonha, sai e deixa eu ver, deixa eu reconhecer, deixa eu me lembrar do corpo da gente, purinho, nuzinho, perfeitinho.
Dia destes eu parei para pensar no meu pai. Pensar prolongadamente, esvaziadamente, porque ele não está mais aqui. Há poucos dias ele se foi, morreu. Mas curiosamente parece que faz muito, muito, muito tempo. Já tive que me despedir de muitos outros entes queridos nesta vida, só que a força da partida de alguém assim único e tão especial, como um pai, parece que revira um pouco a gente.
De fato, não fiquei triste com a morte de meu pai. Senti saudade com carinho por algo que ele um dia foi para mim, sua atenção paterna, um não saber o que falar às vezes, um adoecer se adoecia uma filha... Chorei a saudade, a partida mesmo deste mundo. Mas não fiquei triste, porque é preciso saber alegrar-se e agradar-se diante de uma boa morte.
Sim, uma boa morte – se a morte faz parte da vida e se vale a pena viver, então morrer vale a pena, se a gente teve o tempo para viver... Acho que meu pai, afinal, teve o tempo para viver.
Desde que nascemos, sabemos que a morte nos aguarda em algum lugar do futuro. É lá, no futuro distante e intangível, que reside nossa perspectiva de morte. Bom, talvez não seja assim para aqueles cujas mortes são anunciadas. Mas para o comum do mortal, mesmo sabendo que a morte virá, certa e inevitável, quando ela se apresenta há sempre um certo sentido de estranheza. Por que será?
Quando meu pai morreu, eu quis muito poder ficar só e triste por algum tempo. Mas esse momento nunca foi possível. E isso pareceu-me tão estranho... Alguém morre e logo todos estão providenciando isto, aquilo e mais aquilo outro. Muitos telefonemas, e-mails, visitas, mais providências. E o morto esperando que venham velá-lo... Quando, afinal, chega o velório, muita despedida, muitas palavras de conforto, de acalanto. Novos amigos, velhos amigos, renovados amigos, desconhecidos amigos, todos vêm acalentar os vivos. E, afinal, poucos velam o morto. Poucos lhe dedicam as últimas orações. Poucos processam a passagem para a outra vida.
“Por que falar de morte quando morre alguém? Que coisa boba! Morreu, acabou.”, dirão alguns. Talvez seja assim mesmo. Morreu, acabou. Mas talvez não seja assim mesmo; talvez seja de outro modo, um modo invisível, embora perceptível para alguns.
Ao morrer o meu pai, acho que o que eu mais queria saber é se meu pai tinha ido feliz. Como todos nós, mais ou menos, ele sofreu nesta vida. Sofreu sofrimentos sofridos e sofrimentos sofredores também. Eu achava que ele merecia superar aquela coisa toda que muito o fizera tanto sofrer. Mas quem é que pode saber uma coisa dessa, né? Se alguém que morreu ficou feliz depois da morte? Qua qua qua qua... é coisa engraçada essa idéia... é engraçada. Bem, seja como for pensei muito nestas coisas de morte, de hoje, de agora, de futuro, de ontem, de nunca mais. Pensei muito sobre estas coisas por estes dias. Afinal, quem morreu foi o meu pai.
Mas, deixa, vamos em frente, porque ainda tem muita vida aqui nos esperando, nos envolvendo, nos encantando. Ah, como é bom viver. Viver totalmente, viver até o último dia, até o seu último dia, esteja ele onde estiver, este nosso último dia, incerto, inimaginável, imprevisível. Invisível, embora...
De fato, não fiquei triste com a morte de meu pai. Senti saudade com carinho por algo que ele um dia foi para mim, sua atenção paterna, um não saber o que falar às vezes, um adoecer se adoecia uma filha... Chorei a saudade, a partida mesmo deste mundo. Mas não fiquei triste, porque é preciso saber alegrar-se e agradar-se diante de uma boa morte.
Sim, uma boa morte – se a morte faz parte da vida e se vale a pena viver, então morrer vale a pena, se a gente teve o tempo para viver... Acho que meu pai, afinal, teve o tempo para viver.
Desde que nascemos, sabemos que a morte nos aguarda em algum lugar do futuro. É lá, no futuro distante e intangível, que reside nossa perspectiva de morte. Bom, talvez não seja assim para aqueles cujas mortes são anunciadas. Mas para o comum do mortal, mesmo sabendo que a morte virá, certa e inevitável, quando ela se apresenta há sempre um certo sentido de estranheza. Por que será?
Quando meu pai morreu, eu quis muito poder ficar só e triste por algum tempo. Mas esse momento nunca foi possível. E isso pareceu-me tão estranho... Alguém morre e logo todos estão providenciando isto, aquilo e mais aquilo outro. Muitos telefonemas, e-mails, visitas, mais providências. E o morto esperando que venham velá-lo... Quando, afinal, chega o velório, muita despedida, muitas palavras de conforto, de acalanto. Novos amigos, velhos amigos, renovados amigos, desconhecidos amigos, todos vêm acalentar os vivos. E, afinal, poucos velam o morto. Poucos lhe dedicam as últimas orações. Poucos processam a passagem para a outra vida.
“Por que falar de morte quando morre alguém? Que coisa boba! Morreu, acabou.”, dirão alguns. Talvez seja assim mesmo. Morreu, acabou. Mas talvez não seja assim mesmo; talvez seja de outro modo, um modo invisível, embora perceptível para alguns.
Ao morrer o meu pai, acho que o que eu mais queria saber é se meu pai tinha ido feliz. Como todos nós, mais ou menos, ele sofreu nesta vida. Sofreu sofrimentos sofridos e sofrimentos sofredores também. Eu achava que ele merecia superar aquela coisa toda que muito o fizera tanto sofrer. Mas quem é que pode saber uma coisa dessa, né? Se alguém que morreu ficou feliz depois da morte? Qua qua qua qua... é coisa engraçada essa idéia... é engraçada. Bem, seja como for pensei muito nestas coisas de morte, de hoje, de agora, de futuro, de ontem, de nunca mais. Pensei muito sobre estas coisas por estes dias. Afinal, quem morreu foi o meu pai.
Mas, deixa, vamos em frente, porque ainda tem muita vida aqui nos esperando, nos envolvendo, nos encantando. Ah, como é bom viver. Viver totalmente, viver até o último dia, até o seu último dia, esteja ele onde estiver, este nosso último dia, incerto, inimaginável, imprevisível. Invisível, embora...
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sábado, 16 de agosto de 2008
Dia destes... eu me senti como quem estivesse assim, parada no tempo. Às vezes, persistir no tempo aqui na Terra parece um não sair do lugar, parece com endurecer-se, parece com perguntar: para que o tempo?
A existência neste lugar urbano, elétrico, fulgurante, cheio de atrito, é por vezes pura perda de tempo. Sair de casa e ir ter no trânsito, nas reuniões, nas transmissões digitais, plurais, hipermidiáticas... Para que tanto movimento? Em me pergunto, enquanto me entrego a esse curioso sentido de parar assim... no tempo.
Neste mundo urbano, elétrico, insaciável, o lugar do ser é o mundano. Mas, parada, estática, me ilumino com a idéia – seria recordação? – de que o lugar do ser pode ser o sagrado. Neste mundo elétrico, temerário, veloz, algumas palavras passam pouco por nossas bocas. Sagrado... Sagrado, uma delas.
Acho que ando deprimida pela urbanidade. Não quero trânsito e quero caminho. Quero caminho e quero paradas, paradas para contemplar o caminho e fazer algo de valia com quem no caminho. Pensamento errante, pouco urbano, quer enciclopédias, quer erudição, quer educação. Para educar quem? Quem para que lugar? O lugar do mundo? O lugar do sagrado?
Poder ser em liberdade deverá poder ser em plenitude. Me agrada muito em minhas leituras idéias como as de Edgar Morin, quando nos liberta do só ser sapiens, para poder ser tudo o mais, ludens, prosaicus, economicus, demens. Ao ler Morin, minha mente inquieta, cansada de rondar por aí, pensou assim: eis aí o meu lugar no mundo, eis aí meu lugar sagrado, o lugar do ser complexus!
Essas idéias morinianas como que me libertaram para sempre. Eu já não tenho espaço só no mundo mundano da auto-afirmação, da competição como marco de vida, da velocidade, da velocidade, da velocidade. Na época do incansável homo sapiens, faber, economicus, o trabalho transformou-se em um desenfrear-se coletivo, um fazer contínuo, incessante, cheio de quase fazer muitas coisas, de fazê-las em demasia, muitas vezes coisas feitas de nada.
Ah, esse estado de depressão que me acomete. Esse estar parado querendo estar ainda mais estático.
Algumas palavras me trazem de volta ao mundo, e com palavras assim, quando volto, parece que volto cada vez menos mundo. Idéias como as de Morin causam em mim forte inspiração, porque permitem, afinal, poder me ver em minha complexidade e mais do que me ver, saber-me assim e poder viver assim. Irromper para o mundo como homo complexus.
E que pessoa é essa?
Ai, ai, ai, a velocidade do mundo já acelera-me nos pés. A cabeça quer voar, parada. O corpo quer parar, enquanto voa no universo. Mas o mundo quer que se cale a mente, quer que se entregue o corpo. Quero não sentir-me como robô, entrando mecanicamente num carro, andando mecanicamente por uma via, estacionando mecanicamente no mesmo estacionamento, realizando mecanicamente a mesma tarefa, escrevendo mecanicamente o mesmo texto. E quero um mundo mas autêntico...
Pensar com os pensamentos de outra pessoa é pensar como se alguém pensasse como você, é pensar como quem pensa quando está em oração: sabemos que nossas palavras serão compreendidas e sabemos que nossas palavras não são só nossas palavras, pois que são também de outros.
Se não posso estar parada na eternidade, também não estarei correndo, correndo, correndo. Chega dos limites do sapiens-faber-economicus. Eu quero ser complexa sem qualquer complexidade. Eu quero menos, bem menos, muito menos. Ai, eu quero uma oração. Ai, meu pai eterno, me envia uma oração e, conforme o teu desejo, me faça aquilo que for do meu mérito para o momento: dá-me abrigo e pousada, dá-me companheiros, dá-nos estrada. Dá-me parar, dá-me seguir, dá-nos palavra, uma palavra, tua palavra, uma oração...
A existência neste lugar urbano, elétrico, fulgurante, cheio de atrito, é por vezes pura perda de tempo. Sair de casa e ir ter no trânsito, nas reuniões, nas transmissões digitais, plurais, hipermidiáticas... Para que tanto movimento? Em me pergunto, enquanto me entrego a esse curioso sentido de parar assim... no tempo.
Neste mundo urbano, elétrico, insaciável, o lugar do ser é o mundano. Mas, parada, estática, me ilumino com a idéia – seria recordação? – de que o lugar do ser pode ser o sagrado. Neste mundo elétrico, temerário, veloz, algumas palavras passam pouco por nossas bocas. Sagrado... Sagrado, uma delas.
Acho que ando deprimida pela urbanidade. Não quero trânsito e quero caminho. Quero caminho e quero paradas, paradas para contemplar o caminho e fazer algo de valia com quem no caminho. Pensamento errante, pouco urbano, quer enciclopédias, quer erudição, quer educação. Para educar quem? Quem para que lugar? O lugar do mundo? O lugar do sagrado?
Poder ser em liberdade deverá poder ser em plenitude. Me agrada muito em minhas leituras idéias como as de Edgar Morin, quando nos liberta do só ser sapiens, para poder ser tudo o mais, ludens, prosaicus, economicus, demens. Ao ler Morin, minha mente inquieta, cansada de rondar por aí, pensou assim: eis aí o meu lugar no mundo, eis aí meu lugar sagrado, o lugar do ser complexus!
Essas idéias morinianas como que me libertaram para sempre. Eu já não tenho espaço só no mundo mundano da auto-afirmação, da competição como marco de vida, da velocidade, da velocidade, da velocidade. Na época do incansável homo sapiens, faber, economicus, o trabalho transformou-se em um desenfrear-se coletivo, um fazer contínuo, incessante, cheio de quase fazer muitas coisas, de fazê-las em demasia, muitas vezes coisas feitas de nada.
Ah, esse estado de depressão que me acomete. Esse estar parado querendo estar ainda mais estático.
Algumas palavras me trazem de volta ao mundo, e com palavras assim, quando volto, parece que volto cada vez menos mundo. Idéias como as de Morin causam em mim forte inspiração, porque permitem, afinal, poder me ver em minha complexidade e mais do que me ver, saber-me assim e poder viver assim. Irromper para o mundo como homo complexus.
E que pessoa é essa?
Ai, ai, ai, a velocidade do mundo já acelera-me nos pés. A cabeça quer voar, parada. O corpo quer parar, enquanto voa no universo. Mas o mundo quer que se cale a mente, quer que se entregue o corpo. Quero não sentir-me como robô, entrando mecanicamente num carro, andando mecanicamente por uma via, estacionando mecanicamente no mesmo estacionamento, realizando mecanicamente a mesma tarefa, escrevendo mecanicamente o mesmo texto. E quero um mundo mas autêntico...
Pensar com os pensamentos de outra pessoa é pensar como se alguém pensasse como você, é pensar como quem pensa quando está em oração: sabemos que nossas palavras serão compreendidas e sabemos que nossas palavras não são só nossas palavras, pois que são também de outros.
Se não posso estar parada na eternidade, também não estarei correndo, correndo, correndo. Chega dos limites do sapiens-faber-economicus. Eu quero ser complexa sem qualquer complexidade. Eu quero menos, bem menos, muito menos. Ai, eu quero uma oração. Ai, meu pai eterno, me envia uma oração e, conforme o teu desejo, me faça aquilo que for do meu mérito para o momento: dá-me abrigo e pousada, dá-me companheiros, dá-nos estrada. Dá-me parar, dá-me seguir, dá-nos palavra, uma palavra, tua palavra, uma oração...
sexta-feira, 8 de agosto de 2008
Dia destes estava eu no hospital. Estávamos ali eu e meu marido, intercaladamente, nosso filho pequeno. Ali, naquele momento eterno e provisório, a vida passava. A vida de muitos. Parecia até guerra... Mas era doença, só doença. Bom, muitas vezes, muita doença. E de vez em quando alguma morte.
A criançada ficava ali, esperando... Esperando a hora do aparelho voltar consertado, esperando o dia da visita do especialista, esperando o instrumento para operação, esperando o implante, esperando a anestesia, esperando o remédio, esperando a hora da operação, esperando alguma atenção. E o tempo por ali, passando. As histórias eram muitas; mal sabíamos os nomes uns dos outros. Às vezes, ríamos juntos, às vezes, sofríamos calados. Um dia, um vibrava do teu lado. Era uma mãe, era um pai levando o filho pra casa. Que alegria era aquele dia! Ficávamos sempre feliz quando alguém, afinal, recebia alta. E, enquanto isso, esperávamos. E na sua ala, com velhas gravuras de personagens de desenho animado grudadas na parede, as crianças passavam por aquela experiência. Cada uma, a seu modo. E cada uma por um tempo.
De noite, era um tormento. Aquele tempo parecia que não passava... Por que à noite as dores são mais doídas? Por que a tristeza da madrugada é tão devastadora? Tinha noite que ali era uma gemedeira, um xororô, uma agonia. Tinha noite que o sono ficava suspenso sobre cada um de nós... Como um amigo solidário, não nos abandonava. Ao contrário, mantinha-se em vigília conosco até altas horas da madrugada, esperando um momento onde as coisas quase todas se aquietassem e pudéssemos, então, dormir. Cada um de nós e o seu sono, juntinhos, sem ninguém para acordar o nosso sono. Pelo menos, por uns instantes.
Numa daquelas noites assim assanhadas, onde tudo se mexe e remexe, o trabalho dos plantonistas parecia não ter fim. Era tanto movimento, muitos chegavam, poucos saíam, muitos sofriam, poucos repousavam. Que noite, que horror. E as luzes? Ai, as luzes, que quase não se apagam ali... Numa noite dessas, iluminada e sem fim, o sono só aceitou acasalar-se comigo quando a escuridão, afinal, irrompeu. Escuridão? Eu disse escuridão? Não, não era nenhuma escuridão. Era uma penumbra, só uma penumbra. Mas trazia tanto conforto... Tamanho foi o conforto naquele momento, que dormi profundamente, tão profundamente, que quase não percebi, imersa em minha minha quimera de penumbra e conforto, que o movimento não cessara naquele noite incomum. O corre-corre tinha tomado conta dos plantonistas outra vez. Aquela noite era uma noite voraz. E a luz – ai, aquela luz – iluminava, espantava a noite triste e sombria outra vez.
As crianças daquela ala tinham todas alguma gravidade em seus casos. Umas mais, outras menos, foram ficando ali aqueles dias e logo descobriram que o que valia a pena mesmo era brincar. De carrinho, de desenho, de gibi. Sim, de bola, claro; claro que tinha até bola; imagina, um lugar (horrível, um hospital) cheio de crianças... Claro que tinha bola! Todas tinham mesmo que esperar; então, brincavam enquanto isso. Todas, menos uma.
Ela chegou muito sofrida. Foi um acidente de trânsito. Ela de bicicleta; o outro moço de carro. Foi um pancadão. Ela machucou muito e foi recebendo tratamento. Teve um dia que foi melhorando. Muito sedada, não podia descer para brincar com as outras crianças. Mas parecia que ela estava se dando conta de que, talvez daqui a pouco, pudesse brincar. Mas isso foi só um “talvez” que eu é que pensava, pois não foi assim. Aquela noite de tanto remelexo, a noite que tanto doente e machucado estava trazendo para o hospital, resolveu ainda por cima levar a menininha, a menininha de cabelinho cheio de mexas. As luzes se acenderam, os plantonistas correram, todo o mundo ali se acendeu, calado, acabrunhado, vendo, só vendo. Enquanto, eu e meu sono nos confortávamos ainda um pouco mais.
Afinal saciada, aquela noite tumultuada, agitada e iluminada se foi. O dia veio, levando também meu sono, que se desfez e se perdeu no burburinho daqueles que, despertos, já falavam do ocorrido.
Ao despertar, enfim, vi caminhantes cambaleantes, voltando para seus leitos, depois de verem partir a menininha. Eu ainda não sabia, mas logo veio uma das mães me por a par. Então, eu vi a cena toda, então, eu entendi por que tanta agitação naquela noite, toda espetacular, uma noite que não queria acabar.
Despertei, afinal. Vi todas as mães da ala das crianças, silenciosas, ao lado de seus filhos. Caladas, quase doces, quase sinistras, quase tristes, quase confortadas. Olhar fixo, tão distante, tão distante...
Uma última conversa entre as mães eu ainda partilhei. Mas ali já não era aquela noite, era já um outro dia. Com o raiar do dia veio a dispersão. Todos voltaram pros seus filhos. Depois, quietude... depois, silêncio... uma oração... outra oração... E nada mais.
A criançada ficava ali, esperando... Esperando a hora do aparelho voltar consertado, esperando o dia da visita do especialista, esperando o instrumento para operação, esperando o implante, esperando a anestesia, esperando o remédio, esperando a hora da operação, esperando alguma atenção. E o tempo por ali, passando. As histórias eram muitas; mal sabíamos os nomes uns dos outros. Às vezes, ríamos juntos, às vezes, sofríamos calados. Um dia, um vibrava do teu lado. Era uma mãe, era um pai levando o filho pra casa. Que alegria era aquele dia! Ficávamos sempre feliz quando alguém, afinal, recebia alta. E, enquanto isso, esperávamos. E na sua ala, com velhas gravuras de personagens de desenho animado grudadas na parede, as crianças passavam por aquela experiência. Cada uma, a seu modo. E cada uma por um tempo.
De noite, era um tormento. Aquele tempo parecia que não passava... Por que à noite as dores são mais doídas? Por que a tristeza da madrugada é tão devastadora? Tinha noite que ali era uma gemedeira, um xororô, uma agonia. Tinha noite que o sono ficava suspenso sobre cada um de nós... Como um amigo solidário, não nos abandonava. Ao contrário, mantinha-se em vigília conosco até altas horas da madrugada, esperando um momento onde as coisas quase todas se aquietassem e pudéssemos, então, dormir. Cada um de nós e o seu sono, juntinhos, sem ninguém para acordar o nosso sono. Pelo menos, por uns instantes.
Numa daquelas noites assim assanhadas, onde tudo se mexe e remexe, o trabalho dos plantonistas parecia não ter fim. Era tanto movimento, muitos chegavam, poucos saíam, muitos sofriam, poucos repousavam. Que noite, que horror. E as luzes? Ai, as luzes, que quase não se apagam ali... Numa noite dessas, iluminada e sem fim, o sono só aceitou acasalar-se comigo quando a escuridão, afinal, irrompeu. Escuridão? Eu disse escuridão? Não, não era nenhuma escuridão. Era uma penumbra, só uma penumbra. Mas trazia tanto conforto... Tamanho foi o conforto naquele momento, que dormi profundamente, tão profundamente, que quase não percebi, imersa em minha minha quimera de penumbra e conforto, que o movimento não cessara naquele noite incomum. O corre-corre tinha tomado conta dos plantonistas outra vez. Aquela noite era uma noite voraz. E a luz – ai, aquela luz – iluminava, espantava a noite triste e sombria outra vez.
As crianças daquela ala tinham todas alguma gravidade em seus casos. Umas mais, outras menos, foram ficando ali aqueles dias e logo descobriram que o que valia a pena mesmo era brincar. De carrinho, de desenho, de gibi. Sim, de bola, claro; claro que tinha até bola; imagina, um lugar (horrível, um hospital) cheio de crianças... Claro que tinha bola! Todas tinham mesmo que esperar; então, brincavam enquanto isso. Todas, menos uma.
Ela chegou muito sofrida. Foi um acidente de trânsito. Ela de bicicleta; o outro moço de carro. Foi um pancadão. Ela machucou muito e foi recebendo tratamento. Teve um dia que foi melhorando. Muito sedada, não podia descer para brincar com as outras crianças. Mas parecia que ela estava se dando conta de que, talvez daqui a pouco, pudesse brincar. Mas isso foi só um “talvez” que eu é que pensava, pois não foi assim. Aquela noite de tanto remelexo, a noite que tanto doente e machucado estava trazendo para o hospital, resolveu ainda por cima levar a menininha, a menininha de cabelinho cheio de mexas. As luzes se acenderam, os plantonistas correram, todo o mundo ali se acendeu, calado, acabrunhado, vendo, só vendo. Enquanto, eu e meu sono nos confortávamos ainda um pouco mais.
Afinal saciada, aquela noite tumultuada, agitada e iluminada se foi. O dia veio, levando também meu sono, que se desfez e se perdeu no burburinho daqueles que, despertos, já falavam do ocorrido.
Ao despertar, enfim, vi caminhantes cambaleantes, voltando para seus leitos, depois de verem partir a menininha. Eu ainda não sabia, mas logo veio uma das mães me por a par. Então, eu vi a cena toda, então, eu entendi por que tanta agitação naquela noite, toda espetacular, uma noite que não queria acabar.
Despertei, afinal. Vi todas as mães da ala das crianças, silenciosas, ao lado de seus filhos. Caladas, quase doces, quase sinistras, quase tristes, quase confortadas. Olhar fixo, tão distante, tão distante...
Uma última conversa entre as mães eu ainda partilhei. Mas ali já não era aquela noite, era já um outro dia. Com o raiar do dia veio a dispersão. Todos voltaram pros seus filhos. Depois, quietude... depois, silêncio... uma oração... outra oração... E nada mais.
sábado, 2 de agosto de 2008
Dia destes eu estava bem ansiosa. Estava numa lan e tentava por tudo conexão, mas ela não vinha. Eu havia reservado uma hora de navegação na lan porque em casa estávamos há dias com problema na internet e é claro que eu não queria encontrar intempéries em minha viagem. Aliás, isso sequer tinha passado por minha cabeça. Mas a conexão não vinha. Como aquilo me inquietava e me angustiava. Eu quase me impacientava, mas logo lembrava que seria inútil. Eu queria conexão, mas ela não vinha. Ah, e ter que enfrentar aquela calmaria...
Naquele dia, minha necessidade era ver páginas de um curso, uma formação lato sensu em modo virtual, em que eu estava interessada. Tinha documentos para baixar, preencher, reenviar. Como a conexão não vinha mesmo [a cada instante eu checava], resolvi me acalmar. Então, o que fazer se a conexão não vinha, se estava lenta? Escrever, decidi. Então, é isso que farei enquanto espero conexão. Vou escrever. Vamos lá!
Eu estava na Casa de Ana. É uma lojinha deliciosa. Temos ali tudo de papelaria, temos computadores e um pouco de guloseimas. Bem legal para quem o maravilhoso mundo dos contatos virtuais está bloqueado em casa! Quando cheguei a esse ponto dos escritos, percebi que, naquele momento, estávamos por volta da décima oitava hora do dia. Lembrei-me que era hora de uma Ave Maria – e o morro inteiro, no fim do dia, reza uma prece: “Ave Maria” – e resolvi orar. Resolvi rezar um Pai Nosso e dez Ave Maria.
Assim, desconectada e religada, tentei esquecer o tempo. Tentei só me lembrar de quando eu era menina, nas ruas de subúrbios do Rio de Janeiro, quando naquela hora do dia ouvíamos uma oração. Era a Ave-Maria. muita gente aumentava o som do rádio, mas pouca gente fazia barulho. Era um momento de sagrado em nossas vidas banais daqueles dias, hoje tão distantes. Nessa justa hora ali, na lan de Ana, enquanto me acometia essa contrição, essas orações, o galo cantou na redondeza. E eu orei outra vez. E aos poucos me acalmei.
Naquele dia, não consegui mesmo navegar. Nem em casa, nem na rua. Só pude escrever essas linhas. Tudo graças ao imponderável...
Agrada-me, de alguma maneira, saber que o imponderável se sobrepõe à minha mera existência, minhas tomadas de decisões, minhas ações, minha vontade individual. O imponderável é revelador, mostra caminhos inesperados. Caminhos ainda não percorridos, não caminhados, não navegados. Navegar é preciso e se não for pelos mares da internet, que seja pelo mar de idéias! Pensava eu estas coisas e as escrevia, quando...
O galo cantou de novo. É tempo de fechar este texto, pensei. Pensei ainda: puxa, não fiz nada do que queria fazer na Casa de Ana, não consegui navegar. E pensei mais. Eu pensei: e agora, o que eu faço com esse texto?
E aí o imponderável, afinal, se revelou e mostrou um caminho. E ai resolvi criar este blog, só para falar dessas coisas mesmo, essas coisas que vêm assim, do nada e preenchem o que antes estava vazio. Ai, espero voltar. Eu volto sim. Dias destes...
Naquele dia, minha necessidade era ver páginas de um curso, uma formação lato sensu em modo virtual, em que eu estava interessada. Tinha documentos para baixar, preencher, reenviar. Como a conexão não vinha mesmo [a cada instante eu checava], resolvi me acalmar. Então, o que fazer se a conexão não vinha, se estava lenta? Escrever, decidi. Então, é isso que farei enquanto espero conexão. Vou escrever. Vamos lá!
Eu estava na Casa de Ana. É uma lojinha deliciosa. Temos ali tudo de papelaria, temos computadores e um pouco de guloseimas. Bem legal para quem o maravilhoso mundo dos contatos virtuais está bloqueado em casa! Quando cheguei a esse ponto dos escritos, percebi que, naquele momento, estávamos por volta da décima oitava hora do dia. Lembrei-me que era hora de uma Ave Maria – e o morro inteiro, no fim do dia, reza uma prece: “Ave Maria” – e resolvi orar. Resolvi rezar um Pai Nosso e dez Ave Maria.
Assim, desconectada e religada, tentei esquecer o tempo. Tentei só me lembrar de quando eu era menina, nas ruas de subúrbios do Rio de Janeiro, quando naquela hora do dia ouvíamos uma oração. Era a Ave-Maria. muita gente aumentava o som do rádio, mas pouca gente fazia barulho. Era um momento de sagrado em nossas vidas banais daqueles dias, hoje tão distantes. Nessa justa hora ali, na lan de Ana, enquanto me acometia essa contrição, essas orações, o galo cantou na redondeza. E eu orei outra vez. E aos poucos me acalmei.
Naquele dia, não consegui mesmo navegar. Nem em casa, nem na rua. Só pude escrever essas linhas. Tudo graças ao imponderável...
Agrada-me, de alguma maneira, saber que o imponderável se sobrepõe à minha mera existência, minhas tomadas de decisões, minhas ações, minha vontade individual. O imponderável é revelador, mostra caminhos inesperados. Caminhos ainda não percorridos, não caminhados, não navegados. Navegar é preciso e se não for pelos mares da internet, que seja pelo mar de idéias! Pensava eu estas coisas e as escrevia, quando...
O galo cantou de novo. É tempo de fechar este texto, pensei. Pensei ainda: puxa, não fiz nada do que queria fazer na Casa de Ana, não consegui navegar. E pensei mais. Eu pensei: e agora, o que eu faço com esse texto?
E aí o imponderável, afinal, se revelou e mostrou um caminho. E ai resolvi criar este blog, só para falar dessas coisas mesmo, essas coisas que vêm assim, do nada e preenchem o que antes estava vazio. Ai, espero voltar. Eu volto sim. Dias destes...
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